Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

English breakfast

 

 

Que satisfação me darias um ovo estrelado fazer…

Com uma torrada a acompanhar,

um sumo de laranja num copo transparente,

e depois um beijo de bom dia…

Sei lá eu o que faria,

se tivesse tal e fosse assim realmente,

e pudesse dar-te o meu amar,

e que te tivesse com o teu querer.

 

Não seria almoço com certeza,

nem sequer um bom jantar,

comeríamos salsichas e fritas,

feijão e o que apetecesse comer…

Um abraço pelo meio,

e mais um “pára, que me excitas”…

Era carinho que te queria dar…

Um pequeno almoço à inglesa…

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:10
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Sábado, 23 de Maio de 2009

Tocas-te

 

 

Tocas-te suavemente no quente dos lençóis, e o suor inunda o quarto. As janelas embaciadas apenas deixam entrar a luz do nascer do dia por entre as pequenas aberturas das persianas por onde entram também os olhares de um ou outro passeante que por ali tenha a sorte de andar.

 

O cheiro eleva-se no ar e mistura-se com o da torrada queimada que fizeste há pouco e com a barra de incenso de ontem já apagada no apoio, murcha e sem vida.

 

Um bafo de gata assanhada meio abafado faz-se ouvir seguido de duas ou três inspirações rápidas pelo meio dos dentes e interrompidas por espasmos…

 

Mais um pouco de movimento e mais um gemido.

 

Viras-te para cima e olhas o céu que está para lá do telhado da casa junto dos teus pensamentos mais fantasiosos. A mão esquerda toda o peito, esfregando os mamilos como se de limpeza precisassem e estes respondem apontando o infinito. A direita lá em baixo, peganhenta e molhada, atolando-se nos folhos do teu íntimo. Fechas os olhos outra vez e viras a cara para o lado direito, com o queixo na clavícula e a boca entreaberta que baba saliva para o ombro, sequiosa por abocanhar os fantasmas que a mente produz em catadupa só para este momento.

 

Descobres o corpo lançando o lençol com os pés a um mar no chão que banha a areia da tua cama e te refresca com uma lufada de ar fresco…

 

Esticas a perna esquerda. A direita, dobrada, apoia e abres-te ao mundo o mais possível.

 

Esticas o dedo grande do pé direito em direcção ao fundo da cama formando uma linha recta com o pé e a canela como se em pontas dançasses. O outro pé pelo contrário, está flectido e os dedos para trás, abertos, como as tuas duas pernas que arqueiam agora e elevam as nádegas ao tecto… onde tu já estás… perdida, leve e flutuante, em prazer… um grito abafado de quente…

 

Inspiras rápido, expiras fundo e forte. Contrais os músculos do abdómen e das nádegas, e prendes a respiração… mexes rápido os dedos em todas as direcções como um DJ num disco, abanas e gritas três vezes em impulsos para cima e para baixo como se empurrasses o tecto com as ancas…

 

Respiras e relaxas…

 

Será que os vizinhos te ouviram? - Que vergonha…

 

É manhã e vais tomar banho.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:24
link | comentar | ver comentários (7) | favorito
Sexta-feira, 20 de Março de 2009

O prazer da crítica

 

 

 

"Se há no mundo alguma coisa especialmente díficil

e para a qual, apesar disso,

nos sentimos preparados,

é a arte de criticar."

 

J. L. Martín Descalzo

 

Dizia Dale Carnegie que “a critica é fútil”. Disse também que ao criticarmos alguém ferimos o orgulho dessa pessoa, magoamos o seu íntimo. Não quis, nem se quer para este efeito, analisar o merecimento da crítica ou a pertinência da mesma. Ou até, da intenção da crítica, que pode em determinadas circunstâncias ser a única medida para solucionar um problema. Apenas disse que o era. E é!

 

Não me cabe a mim a elaborada missão de criticar quem critica, se assim o fosse, estaria a incorrer no erro já anteriormente criticado. Não. Antes farei uma incursão pelos momentos deliciosos da crítica, que todos nós já experimentámos e que continuamos a fazer, diariamente sem dó nem piedade.

 

Que sentimos quando apontamos o dedo a um político? Governante? Polícia? Funcionário público? Professor? Colega de trabalho? Ou um mero condutor que se cruza no nosso caminho na estrada? Satisfação? Poder? Ódio? Raiva?

 

Tem tudo a ver com a transferência de energias, diz James Redfield no seu romance best-seller “A profecia Celestina”, e que a crítica será uma das armas de ataque contra o oponente a enfrentar e derrotar, a fim de sugar a sua energia pela vitória, pelo cansaço e aniquilação. Há mestres na crítica e no confronto. Esses bem falantes que conseguem reinar dividindo ("Divide et regna" – como já era usado por Luis XI de França, Filipe II da Macedónia, ou até pelos Césares da Roma imperial) e agraciando o seu próprio ego com a taça de vitória sobre o oponente vencido.

 

O curioso é que a transferência energética fará mais sentido, quando analisada como um fenómeno científico possível, no confronto directo e pessoal, e não à cobarde distância. Ora, sabemos que se pode criticar alguém mesmo quando essa pessoa está ausente, ou simplesmente não nos pode ouvir, certo? Então que tipo de energia é transferida? - a do ouvinte! Ele dá-nos a energia de bom grado. Vejamos um exemplo simples: estou com um qualquer Manel no café e digo – “estes turistas conduzem mal que se farta!”, o outro poderá dizer – “tens toda a razão, pá! Os gajos são uns aselhas!”. Isto criará entre mim e o Manel uma sensação de cumplicidade pela partilha de uma opinião comum. O Manel dá-me um pouco da sua energia e eu agradeço e retribuo, com um sorriso que indicia – “nós é que somos bons condutores – os turistas não prestam!” e partilho um pouco da minha energia. A energia é partilhada e não subtraída aos outros – que coitados (ou não) nem sabem que lhe “cortam a casaca”.

 

A crítica contra terceiros ausentes (chamemos-lhe assim) é muito comum e normalmente resulta numa animada troca de críticas subsequentes que têm exactamente o mesmo objectivo da primeira, como por exemplo (e no seguimento do exemplo dos turistas), “então e os lisboetas? Nem queiras saber, pá!”. E assim por diante na bondade da partilha de cúmplices opiniões contra os outros.

 

Imaginemos agora outra situação de confronto que pode resultar do ”síndrome dos turistas maus condutores”, que é quando o outro diz: “eu sou turista, pá!” (que todos somos ou fomos) ou mais comummente “eu sou lisboeta, pá!” para o caso do alvo serem os ditos. O que pode ter como consequência uma de duas coisas: ou o Manel retrata-se e corrige “nem todos os lisboetas, é os velhos que eu me refiro, pá!” ou então vai à luta e diz “sim pá, tu és um banana ao volante!” o que direcciona a uma discussão directa (com troca de energias a subtrair) e que pode ter mil resultados, entre eles o insulto e a violência, mas que não terá um desfecho muito diferente de vencedor e vencido.

 

Qualquer que seja a situação a crítica tem como objectivo imediato e necessário a satisfação da necessidade de afirmação e poder perante o outro e si próprio de um egoísmo puro e básico.

 

Sugiro a quem possa interessar, onde me incluo a mim próprio, e sem qualquer crítica, que possamos elogiar, louvar, criar, engrandecer, estimar e acariciar, o que está bem e quem temos pela frente, em vez de criticar.

 

Mário L. Soares

 

 

publicado por Lagash às 16:17
link | comentar | favorito

Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

mais sobre mim

procurar em Lagash

 

Março 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

posts recentes

English breakfast

Tocas-te

O prazer da crítica

arquivos

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

tags

todas as tags

links

blogs SAPO

subscrever feeds

Em destaque no SAPO Blogs
pub