Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Forma de inocência

 

 

Hei-de morrer inocente

exactamente

como nasci.

Sem nunca ter descoberto

o que há de falso ou de certo

no que vi.

 

Entre mim e a Evidência

paira uma névoa cinzenta.

Uma forma de inocência,

que apoquenta.

 

Mais que apoquenta:

enregela

como um gume

vertical.

E uma espécie de ciúme

de não poder ser igual.

 

António Gedeão

 

publicado por Lagash às 16:22
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Poema da auto-estrada

 

 

Voando vai para a praia

Leonor na estrada preta

Vai na brasa de lambreta.

 

Leva calções de pirata,

Vermelho de alizarina

modelando a coxa fina

de impaciente nervura.

Como guache lustroso,

amarelo de indantreno

blusinha de terileno

desfraldada na cintura.

 

Fuge, fuge, Leonoreta.

Vai na brasa de lambreta.

Agarrada ao companheiro

na volúpia da escapada

pincha no banco traseiro

em cada volta da estrada.

Grita de medo fingido,

que o receio não é com ela,

mas por amor e cautela

abraça-o pelo cintura.

Vai ditosa, e bem segura.

 

Como rasgão na paisagem

corta a lambreta afiada,

engole as bermas da estrada

e a rumorosa folhagem.

Urrando, estremece a terra,

bramir de rinoceronte,

enfia pelo horizonte

como um punhal que enterra.

Tudo foge à sua volta,

o céu, as nuvens, as casas,

e com os bramidos que solta

lembra um demónio com asas.

 

Na confusão dos sentidos

já nem percebe, Leonor,

se o que lhe chega aos ouvidos

são ecos de amor perdidos

se os rugidos do motor.

 

Fuge, fuge, Leonoreta

Vai na brasa de lambreta.

 

António Gedeão

 

publicado por Lagash às 16:17
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

Calçada de Carriche

 

("On The Run" por Gilad Benari) 

 

 

Luísa sobe,

sobe a calçada,

sobe e não pode

que vai cansada.

Sobe, Luísa,

Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Saiu de casa

de madrugada;

regressa a casa

é já noite fechada.

Na mão grosseira,

de pele queimada,

leva a lancheira

desengonçada.

Anda Luísa,

Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Luísa é nova,

desenxovalhada,

tem perna gorda,

bem torneada.

Ferve-lhe o sangue

de afogueada;

saltam-lhe os peitos

na caminhada.

Anda Luísa,

Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Passam magalas,

rapaziada,

palpam-lhe as coxas,

não dá por nada.

Anda Luísa,

Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Chegou a casa

não disse nada.

Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;

bebeu da sopa

numa golada;

lavou a loiça,

varreu a escada;

deu jeito à casa

desarranjada;

coseu a roupa

já remendada;

despiu-se à pressa,

desinteressada;

caiu na cama

de uma assentada;

chegou o homem,

viu-a deitada;

serviu-se dela,

não deu por nada.

Anda Luísa,

Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Na manhã débil,

sem alvorada,

salta da cama,

desembestada;

puxa da filha,

dá-lhe a mamada;

veste-se à pressa,

desengonçada;

anda, ciranda,

desaustinada;

range o soalho

a cada passada;

salta para a rua,

corre açodada,

galga o passeio,

desce a calçada,

chega à oficina

à hora marcada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga;

toca a sineta

na hora aprazada,

corre à cantina,

volta à toada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga.

Regressa a casa

é já noite fechada.

Luísa arqueja pela calçada.

Anda Luísa,

Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Anda Luísa,

Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

António Gedeão

in Teatro do Mundo

 

publicado por Lagash às 16:27
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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Amor sem tréguas

 

 

 

 

 

É necessário amar,

qualquer coisa, ou alguém;

o que interessa é gostar

não importa de quem.

 

Não importa de quem,

nem importa de quê;

o que interessa é amar

mesmo o que não se vê.

 

Pode ser uma mulher,

uma pedra, uma flor,

uma coisa qualquer,

seja lá o que for.

 

Pode até nem ser nada

que em ser se concretize,

coisa apenas pensada,

que a sonhar se precise.

 

Amar por claridade,

sem dever a cumprir;

uma oportunidade

para olhar e sorrir.

 

Amar como o homem forte

só ele sabe e pode-o;

amar até à morte,

amar até ao ódio.

 

Que o ódio, infelizmente,

quando o clima é de horror,

é forma inteligente

de se morrer de amor.

 

António Gedeão

 

publicado por Lagash às 16:12
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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Nascimento de Rómulo de Carvalho

 

(Rómulo de Carvalho - desconheço o autor da foto) 

 

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nasceu a 24 de Novembro de 1906 em Lisboa e morreu a 19 de Fevereiro de 1997, com 90 anos de idade.

 

António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho foi poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. Concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a actividade de docente.

 

Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).

 

Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo. A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia. Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção.

 

Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973). Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada.

 

Fonte: Luso-poemas.net

 

publicado por Lagash às 10:19
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Homem

 

(foto retirada da internet - desconheço o autor) 

 

Inútil definir este animal aflito.

Nem palavras,

nem cinzéis,

nem acordes,

nem pincéis,

são gargantas deste grito.

Universo em expansão.

Pincelada de zarcão

Desde mais infinito a menos infinito.

 

António Gedeão em Poemas Escolhidos

 

publicado por Lagash às 10:05
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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Pedra Filosofal

 

 

 

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.

 

eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.

 

Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.

 

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 

António Gedeão (Rómulo de Carvalho) In Movimento Perpétuo, 1956

publicado por Lagash às 16:17
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Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Poema numa esquina de Paris

  

 

 

 

Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.

 

     Umas para lá.

     Outras para cá.

     Umas para cá.

     Outras para lá.

     Mas cada uma que passa

     tem de fazer na esquina um pequeno rodeio

     para não se esbarrar com o par que aí se abraça.

     Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,

     tentam matar a inesgotável sede.

     Através dos seus corpos transparentes

     lê-se na esquina da parede:

 

     DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ

     MAURICE DUPRÉ

     HÉROS DE LA RESISTANCE.

     VIVE LA FRANCE.

 

 

António Gedeão

publicado por Lagash às 22:33
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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Aurora Boreal

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

 

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

 

 

António Gedeão (Rómulo de Carvalho)

publicado por Lagash às 04:09
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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