Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Mar, mar e mar

 

 

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que a minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exactamente no meu coração

O mar volta a ser pequeno e meu,

anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

Eugénio de Andrade

 

publicado por Lagash às 16:27
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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Não choreis os mortos

 

(foto de Sergei Ponomarev)

 

Não choreis nunca os mortos esquecidos

Na funda escuridão das sepulturas.

Deixai crescer, à solta, as ervas duras

Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

 

E, quando à tarde, o Sol, entre brasidos,

Agonizar… guardai, longe, as doçuras

Das vossas orações, calmas e puras,

Para os que vivem, nudos e vencidos.

 

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,

Da multidão sem fim dos que são vivos,

Dos tristes que não podem esquecer.

 

E, ao meditar, então, na paz da Morte,

Vereis, talvez, como é suave a sorte

Daqueles que deixaram de sofrer.

 

Pedro Homem de Mello

 

publicado por Lagash às 16:05
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Sábado, 30 de Agosto de 2008

Fado

 

 

Que fado este que a minha vida revela? Que triste sina esta que me acompanha na despedida, na chegada, no prazer, no sofrimento? Sempre triste, funesta, sempre com lágrima, sempre almejando melhor e sendo sempre sentido.

Que fado é este que tenho cá dentro e me faz, me preenche e é aquilo que sou? Que derrota à partida é esta que me faz ganhar quando quero? Que pessimismo é que me vai na alma e me dá aquele grande optimismo do mal menor na maior tragédia sofrida?

Que fado é o meu? Que fado é o nosso?

Mudam-se os ventos mudam-se as vontades, pois então!

Mudemos para tanto o nosso fado, por quão grandes queremos ser, que nunca seremos maiores do que aquilo que quisermos ser.

Se somos bons quando queremos, sejamos então sempre os melhores, porque queremos e somos!

Farto estou de fados tristes e moribundos. Alegre-se a nossa tristeza – riremos das nossas faltas e amarguras.

Apontaremos o indicador a nós próprios, quais jograis e corte na mesma pessoa. Mas olhando nos olhos, sérios, com um sorriso.

Evolução fatídica e optimista. Eis a  solução. Para o nosso fado… o meu fado…

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:03
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Lágrima

 

 

Chorar para quê?

Que vale o sal da tua lágrima?

Vale o que deste por ela?

Deste o que valia o sal?

 

Partes do fundo do que não és,

Andas por caminhos que te são favoráveis

E conheces. Tudo é belo e fantástico!

És um verdadeiro espectáculo…

 

Controlas tudo à tua volta,

E marchas, sem piedade sobre tudo…

Vale tudo. És cauteloso, no entanto.

Queres que seja tudo perfeito.

 

Nada falha, e consegues o que procuras.

Estás mais que habituado a ganhar,

Sabes o que vales e o que queres,

Mestre. Sabe-lo bem.

 

Depois… olhas à tua volta…

E começam a surgir os problemas.

Deturpações, alterações e confusões…

Nada parece ser aquilo que querias

 

Tentas mudar o que te circunda

Lutas para alterar o imutável

Sofres e fazes sofrer

O que é que se passou afinal?

 

O que é que falhou?

Foste tu? Foi alguma coisa na tua batalha?

Enganaste-te no que querias?

Foste tu enganado sem querer?

 

Não sabes… sabes que nada está bem…

Não pode ser… tem de estar em ti…

Retira este cancro que te atraiçoa!

Sai de ti! Purga o teu mal!

 

Nada funciona… nada está como devia…

Há o caos… nada é controlado…

A desorientação é incrível…

Sentes náuseas e vómitos…

 

Quem tem a resposta?

Quem te diz o que fazer?

Queres salvar o que é possível…

Queres sair do meio do mar…

 

Não queres magoar ninguém…

Nunca quiseste. Inocente foi a tua conquista.

Ainda é possível! Podes mudar…

Não há tempo… e nada funciona… não funcionas…

 

Salvas os pratos… aquilo que não interessa…

Mas não sabes o que fazes… a cegueira impede-te.

Nem os ratos vão sair do teu porão!

Morrem secos no fundo de um esgoto!

 

Quando vês, já não há retorno!

Tudo é imperfeito e torto…

Nunca pensaste alguma vez estar assim.

Mas estás. Tudo está morto! Mataste!

 

Que fazes? Que vais agora fazer?

Que palavras tens tu a dizer?

Segues ou queres seguir a tua vida…

Morrer não é solução…

 

Queres que tudo volte atrás…

Não é possível. As palavras não se desdizem,

As acções não se desfazem,

E o amor não se desama

 

Tentas erguer a tua cabeça.

Queres limpar o sangue…

Nada há sequer a limpar…

Não sabes mais o que fazer e… …choras…

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 09:05
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Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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