Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

John's Not Taken

 

 

Porque as palavras aparecem em diferentes formas…

 

Porque as formas da vida dão-nos frutos que não esperamos. Porque muitas vezes esperamos frutos diferentes da semente que plantamos.

 

Por todas as razões. A música, por si só, conta-nos histórias, leva-nos a lugares viajando pelo ar. A música faz-nos fechar os olhos e ver coisas diferentes, ou pelo menos, de forma diferente.

 

Oiçam a bom som e de olhos fechados, a poesia desta guitarra de Dominic Frasca.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:09
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Miosótis - Forget me not

 

 

A Primavera chegou.

Dois jovens enamorados passeavam nas margens de um rio caudaloso.

Inesperadamente um ramo de miosótis surgiu flutuando nas águas revoltas.

 

A jovem, encantada com as flores, quis tirá-las do rio.

 

O jovem, de forma destemida, atirou-se à água para as apanhar e dar à sua amada como prova do seu amor.

 

Mas a forte corrente do rio não permitiu que ele pudesse regressar à margem.

Sentindo-se sem forças e na eminência de se afogar, ainda gritou:

- Não me esqueças, ama-me sempre!

 

 

 

Desde então, o miosótis floresce nas margens dos rios e simboliza: Não-me-esqueças...

 

Lenda popular

 

A história recente atribuiu-lhe ainda outro significado, não menos importante ou dramático e com uma carga emocional fortíssima.

 

Logo após a tomada do poder de Hitler, os maçons alemães perceberam que a maçonaria estava em perigo na Alemanha. Mais tarde viram que estaria em perigo também pelo resto da Europa e pelo mundo, bem como a própria vida dos maçons. Assim, como forma de reconhecimento imediato e aberto, em substituição do tradicional esquadro e compasso, a Grande Loja da Alemanha decidiu substitui-lo por uma flor – o miosótis, já que o outro símbolo era amplamente conhecido pelo regime Nazi. Era usado na lapela do casaco.

 

Serviu desta forma para que os maçons se reconhecessem e para mantê-los ligados entre si.

 

 

 

Actualmente os maçons usam o “Forget me not” na lapela em memória dos mortos da grande guerra e como forma de repudio às atrocidades do holocausto. Significa assim, “nunca esquecerei”. Pode ser usado também em memória de um irmão que partiu.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:01
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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Pato

 

(foto de Fernando Gonçalves em http://fanumnaturalis.blogspot.com/ ) 

 

Pato ganso, ganso pato,

Que voas pelo ar

E me encantas com o teu encanto

E que chorando em pranto

Enches o mar

E comes no meu prato!

 

Gozo com as histórias

Que contas ao regresso...

Do que vês quando estás fora,

E me falas na hora

Mesmo quando não peço,

Dás-me as memórias...

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:01
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Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Um passeio que chama o desejo

Passeou-se pelo passeio da praça despreocupadamente, sem que ninguém tivesse coragem de lhe dizer fosse o que fosse. Tinha um sorriso nos lábios e todos a olhavam. Vários sonharam acordados com ela nessa noite ainda que as suas mulheres ressonassem mesmo ao seu lado.
Até as mulheres a olharam, com um misto de inveja e luxúria. Não passou despercebida a ninguém; todos a desejaram. As longas e perfeitas pernas faziam ondular umas nádegas de fazer inveja às actrizes norte-americanas de origem latina mais conhecidas. Ombros suaves, seios médios que desafiam a gravidade. Cabelo loiro e vistoso impecavelmente penteado e solto. Nunca nada assim tinha passado por ali. Vários tiram-lhe fotos descaradamente por todos os ângulos e foram atrás dela... Eu fiquei por ali, embora nunca tivesse visto nada igual. Também a desejei... Mas fiquei a pensar. Porque será que estava nua?

 

 

 

 

Mário L. Soares (publicado em Revista Minguante nº11)

 

publicado por Lagash às 16:17
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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Al Pacino's Inspirational Speech

 

 

 

I don’t know what to say really.
Three minutes
to the biggest battle of our professional lives
all comes down to today.
Either
we heal
as a team
or we are going to crumble.
Inch by inch
play by play
till we’re finished.
We are in hell right now, gentlemen
believe me
and
we can stay here
and get the shit kicked out of us
or
we can fight our way
back into the light.
We can climb out of hell.
One inch, at a time.

 

Now I can’t do it for you.
I’m too old.
I look around and I see these young faces
and I think
I mean
I made every wrong choice a middle age man could make.
I uh….
I pissed away all my money
believe it or not.
I chased off
anyone who has ever loved me.
And lately,
I can’t even stand the face I see in the mirror.

 

You know when you get old in life
things get taken from you.
That’s, that’s part of life.
But,
you only learn that when you start losing stuff.
You find out that life is just a game of inches.
So is football.
Because in either game
life or football
the margin for error is so small.
I mean
one half step too late or to early
you don’t quite make it.
One half second too slow or too fast
and you don’t quite catch it.
The inches we need are everywhere around us.
They are in ever break of the game
every minute, every second.

 

On this team, we fight for that inch
On this team, we tear ourselves, and everyone else around us
to pieces for that inch.
We CLAW with our finger nails for that inch.
Cause we know
when we add up all those inches
that’s going to make the fucking difference
between WINNING and LOSING
between LIVING and DYING.

 

I’ll tell you this
in any fight
it is the guy who is willing to die
who is going to win that inch.
And I know
if I am going to have any life anymore
it is because, I am still willing to fight, and die for that inch
because that is what LIVING is.
The six inches in front of your face.

 

Now I can’t make you do it.
You gotta look at the guy next to you.
Look into his eyes.
Now I think you are going to see a guy who will go that inch with you.
You are going to see a guy
who will sacrifice himself for this team
because he knows when it comes down to it,
you are gonna do the same thing for him.

 

That’s a team, gentlemen
and either we heal now, as a team,
or we will die as individuals.
That’s football guys.
That’s all it is.
Now, what are you gonna do?

 

Al Pacino no filme “Any Given Sunday”

 

publicado por Lagash às 16:32
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Domingo, 4 de Maio de 2008

Destinos

 

 

Lígia Pereira de Sousa, 75 anos, solteira, prima em terceiro grau da Condessa de Ourique, moradora de um T5 no Restelo. Vive na companhia de Tareco, gato, cinco anos, rafeiro, sem parentes conhecidos, um presente de Octávio Francisco Magalhães de Almeida e Sousa, 43 anos, "bon vivant" e sobrinho querido.

Lígia tem a mania da limpeza e costuma banhar o Tareco uma vez por dia. neste momento, Ligia está a pôr o Tareco, todo molhado do seu último duche, a secar dentro de um forno de microondas. Tareco ainda protesta mas Lígia não se incomoda. Fecha a porta do microondas. Liga-o no máximo.

Enquanto isto, no Algarve, Paulo Monsanto de Carvalho, quatro anos, mais conhecido como Baby, está a construir um castelo de areia na Praia do Gigi. É neste preciso momento que, Tomás Cardoso de Oliveira, sete anos, sardento, caixa-d'óculos e mau carácter, prepara-se para chutar o castelo de Baby. Tomás não sabe, mas Baby jamais irá esquecer o dia em que o seu castelo foi destruído. O trauma por ver uma obra sua deitada, literalmente, abaixo transformará Baby num homem eternamente ressentido, incapaz de acabar um curso, formar uma família, fazer uma carreira e que acabará por entregar-se ao álcool.

Passados 30 anos deste fatídico dia, Baby encontrará casualmente Tomás, executivo bem sucedido, presidente de uma empresa importadora de bananas africanas, numa rua escura, ali pelos lados de Alfama. Não me pergunte o porquê mas Baby estará armado com uma pistola de alto calibre. Baby reconhecerá as sardas e os óculos de Tomás imediatamente. Tomás mal terá tempo de pedir perdão. Em segundos, estará no chão como o castelo que neste exacto momento ele chuta.

Enquanto isto, Alfredo Redondinho Costa, 33 anos, publicitário e “serial killer”, devora o seu pequeno almoço num café ao pé do Marquês de Pombal. O sonho de Alfredo era ser um artista plástico reconhecido internacionalmente. Porém, devido ao intenso ritmo do seu trabalho, a criar anúncios para vender lixívia de uma marca branca de supermercado ou hambúrgueres de uma conhecida rede de “fast food”, feitos a partir de restos de carne de porco, cavalo e papel jornal, nunca encontra tempo para dedicar-se à arte.

Para compensar essa frustação, Alfredo costuma assassinar desconhecidos. Executa-os usando com uma certa violência um taco de basebol. Depois esfola as suas peles, arranca os seus cabelos e com esse material constrói uma instalação na porão da sua casa. Alfredo tem o hábito de escolher as suas vítimas pela manhã no café onde está neste momento.

E é por isso que ele concentra a sua atenção em Vanessa Pires Moutinho, 27 anos, mulata brasileira de compleição física avantajada, nascida Sebastião Pires Moutinho, objecto de uma cirurgia de mudança de sexo na Suécia. Vanessa repara nos olhares de Alfredo e corresponde. Passados alguns minutos trocam os telefones.

Alfredo fica empolgado com a possibilidade de acrescentar um tom de pele mais escura à sua já imensa obra prima. Não sabe que Sebastião, digo, Vanessa, antes de se tomar dançarina de um bar de strippers da 24 de Julho, era porteiro de uma boate em Recife. Dona de uma força descomunal, será simples para Vanessa empalar, via anal, o psicopata com o seu próprio taco de basebol. Surpreendentemente, Alfredo morrerá com dor, mas morrerá feliz.

Enquanto isto, Pedro Saldanha Soares, 38 anos, filósofo formado numa universidade francesa, caminha pelo centro da cidade. Está a reflectir sobre a sua tese de doutoramento baseada no conceito da não existência do destino. Pedro defende que o homem, através do raciocínio dialéctico e da argumentação entrópica, pode controlar todos os passos da sua vida.

Pedro acredita que o destino não passa de uma invenção das almas ingénuas, uma herança abstracta da origem tribal da humanidade. Ele está a pensar nisso enquanto atravessa a rua sem perceber que um autocarro da linha Chelas-Rossio vem na sua direcção. Joaquim da Silva, 44 anos, ex-interno da Casa Pia, motorista, ainda tenta travar o autocarro mas é tarde demais.

Enquanto isto, Tareco arranha o vidro do microondas e dá a sua miada final.


Edson Athayde

publicado por Lagash às 18:57
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Domingo, 6 de Abril de 2008

Sem coração

Não tinha coração. Nasceu sem. Não que isso fosse um problema, uma crise no sistema, uma questão por aí além.

Não tinha coração. E isso era até uma vantagem, sublime malandragem, tendo em vista que, quem tem coração, costuma ser bobo. E ele, que não era nenhum menino de coro, nasceu para se dar bem.

Como não tinha coração, também não tinha sangue, como as santas, as baratas e as vamps. Mas tinha um propósito na vida, seria o dono do mundo, ou não se chamaria Raimundo, o que, além de uma rima, era uma solução.

Viveu sem escrúpulos, roubou doces aos miúdos, vendeu a mãe várias vezes, mas nunca entregou. Seguia à risca o seu plano selvagem, para tudo tinha coragem, até que um dia, daqueles normais em que apetece dar banho ao cão ou visitar a tia, Raimundo encontrou Maria Rita (ou Rita Maria, nunca soube ao certo), doce menina dos olhos verdes e sorriso aberto.

Rita Maria (ou Maria Rita) tinha ido à cidade fazer uma promessa, pois sofria de uma terrível mazela: amava ao próximo como a si mesma. O problema é que o próximo era sempre o que estava mais perto, fosse branco, preto ou amarelo, sem nenhuma descriminação de idade, sexo ou credo.

Maria Rita, com tanto amor para dar, recebia muito pouco. Sofria com aquele amor sem morada, sem nome, sem nexo, sem cara. daí ter feito uma promessa tão rara: se pudesse não amar um homem, fosse ele um politico, um mendigo ou artista, subiria o Everest de joelhos.

Raimundo, reparou em Rita Maria a fazer a promessa na igreja e apaixonou-se à primeira vista. Para quem não tinha coração, aquilo era muito, um despautério, um absurdo. Daí que Raimundo sentiu uma dor no peito. Era um coração que ali nascia meio sem jeito e quanto mais ele mirava Maria Rita mais o órgão crescia, crescia, crescia.

Rita Maria, afinal, deu pelo Raimundo, o outrora dono do mundo, mas agora um simples mortal. como por um milagre, não se apaixonou. Pelo contrário, sentiu escárnio, viu em Raimundo um pobre, um lixo, um chulo.

Raimundo, apaixonado, perdeu o rumo, perdeu o chão, perdeu tudo. passou a andar pelas ruas como um cão, a beber, a fazer poesias concretas em mau francês, típicas de um ébrio esteta que amava pela primeira vez.

Maria Rita sabia daquele amor impossível e ria-se do amante falhado, sem eira nem beira, vestido de trapos, que fazia vénias quando ela passava em direcção da padaria, da farmácia ou da missa.

Em pouco tempo, o coração de Raimundo já estava do tamanho de uma bomba, daquelas de cartoon, tipo assim redonda, com um pavio aceso na ponta, prestes a rebentar. Rita Maria não só sabia da triste história como ainda alimentava a paródia, fazia olhinhos sempre que o encontrava, mas depois travava qualquer investida.

Várias foram as vezes em que a sacripanta entrou na tasca para tripudiar do cretino, que chorava aos seus pés como um Deus menino, enquanto ela, indiferente, bebia uma Fanta.

Depois de uns tempos e de uns ventos de monção, Raimundo não aguentou e a bomba do seu coração estoirou, voando pedaços de paixão para todos os lados, emporcalhando jardins, muros, telhados.

Raimundo morreu num instante, desprezado enquanto amante, mas misteriosamente feliz. Como todos os apaixonados, mesmo os renegados, Raimundo teve, por um triz, a sorte madrasta de saber para que servia era um coração de verdade. E Maria Rita, na sua sublime maldade, aquela que amava a todos menos um, decidiu, um bocado na pressa, pagar sua promessa, rumando para o Nepal.

Mal lá chegou, apaixonou-se por um monge budista, chamado Ming, meio santo, meio autista, que, diziam as más línguas, era um ex-amante do Sting.

O monge, com um certo azedume, desprezou solenemente a donzela. que morreu como uma cadela, congelada de joelhos bem pertinho do cume.

O monge, não sem uma suspeita alegria, no lugar onde Rita Maria jazia, tentou sem sucesso plantar um arvoredo. de Raimundo, o que queria ser dono do mundo, ninguém guardou memória. e essa é a moral da história: quem tem coração, tem medo.

 

 

Edson Athayde

publicado por Lagash às 17:15
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

A moça tecelã

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo se sentava ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois, lãs mais vivas; quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que, em pontos longos, rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas, se, durante muitos dias, o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome, tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor-de-leite que entremeava o tapete. E, à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas, tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha e, pela primeira vez, pensou como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E, aos poucos, seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma e foi entrando na sua vida.

Naquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, por algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária, disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor-de-tijolo, fios verdes para os batentes e pressa para a casa acontecer.

Mas, pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Por que ter casa, se podemos ter palácio?, perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates de prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça, tecendo tetos e portas, e pátios, e escadas, e salas, e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto, sem parar, batiam os pentes, acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal, o palácio ficou pronto. E, entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete, disse.

E, antes de trancar a porta a chave, advertiu:

— Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso, tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos; os cofres, de moedas; as salas, de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E, tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E, pela primeira vez, pensou como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E, descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois, desteceu os criados e o palácio. E todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz que a manhã repetiu na linha do horizonte.


Marina Colasanti

 

publicado por Lagash às 06:13
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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