Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Um e Outro

 

 

Onde um era água, o outro era mão. Um escorria pelos dedos, enquanto o outro, desesperado, agarrava-o em vão. Um não era nada, o outro achava-se tudo, menos tudo o que queria ser. Como eu. Como você. E seguiam juntos pela vida, como se a vida fosse para algum lugar, mas não, não vai. Nem vem. A vida não é táxi de ninguém.
 
Um era astronauta sem foguete, o outro era avião. Mesmo Céu, mesmas estrelas, mas sempre presos ao chão. O que faz lembrar que pior do que nada ser é ser apenas quase. Pois quase é perto, mas não é lá. Quase é o demónio que engana o homem sério, quase é o melhor atalho para o inferno. É o que faz acreditar que no fim tudo vai fazer sentido. E é aí, amigos, que mora o perigo. Pois nada sentido faz. Nem fez. A vida é sempre com vocês.
 
Um era rebuçado, o outro papel plástico amassado. Um era teorema, o outro resposta na página ao lado. Um era lâmpada acesa, o outro vela sobre a mesa. Um era um bom cigarro, o outro não era um comentário do ministério implicado na solução final para o problema prioritário do cancro nacional. Onde um era água, outro era mão. Água molha, mão segura. Água verte, mão na luva. Água mole, pedra dura. Tanto bate, mão esmurra. Água esguicha, mão partida. Mão doente, água quente. Mão enferma, água cura.
 
Se a paixão fosse um copo, um até poderia sonhar. Esquecendo o claro risco de, por uma gota, ver o outro transbordar. Onde um era água, o outro era mão. Até que veio o inverno e, junto, a solução. Água virou gelo. E mão o pode agarrar. Daí seguiram juntos pela vida. Como se a vida fosse para algum lugar. Mas não, não vai. Não vai não. A vida só vai até a próxima batida do coração. Ou, no caso, até nascer o primeiro raio de Sol na primeira madrugada do primeiro dia do próximo Verão.

 

Edson Athayde

 

publicado por Lagash às 16:17
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Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Ego

 

 

 

“Quem é que tu pensas que és?”
Sempre que eu ouço essa pergunta tremo nas bases.
“Quem é que tu pensas que és?”
Nunca sei se a pergunta é à sério ou uma mera figura de retórica.
“Quem é que tu pensas que és?”
Na dúvida, minto. Digo que penso que sou o que não sou.
E depois passo a ser.
É por isso que já fui mergulhador nas Antilhas, mensageiro na Índia, piloto da Nasa.
Já fui serial killer em Detroit, pop star na Cochinchina, bombeiro, chulo, Bispo de Braga.
Já fui diplomata depois de uma crise matrimonial com uma dona de bar no Arkansas.
Fiz carreira, cheguei a cônsul na Jamaica.
Mas, um dia, numa discussão de trânsito, alguém me perguntou quem eu pensava que era e passei a ser investigador científico renomado.
Estava a pesquisar uma misteriosa virose que atacava uma minoria étnica, quando o meu irritadiço chefe me obrigou a dizer que eu era um palhaço.
Desde então segui a vida num circo, onde as crianças vinham rir das minhas piadas.
Viajei meio mundo, fui à Rússia, ao Ceilão, à ex-Jugoslávia. Casei com a mulher barbada e tive três filhos: um trapezista, um mágico e um anão.
Mais uns anos de trabalho e conseguiria dinheiro para comprar a minha própria tenda.
Até que um dia, o domador, numa inexplicável crise de ciúmes pelo leão, fez-me a pergunta fatídica: “Quem é que tu pensas que és?”
E então eu respondi que era apenas um publicitário com pouco menos de quarenta anos, cliente especial de uns dois ou três bancos, que adora filmes, livros, i-pods e coisas moderninhas, que não sabe se acredita em Deus, mas que tem a certeza que Deus acredita nele, que tem poucos amigos reais e muitos imaginários, que tem medo de chegar ao fim da vida sem ter feito nada que valha realmente a pena esquecer, que tem a mania de que é uma daquelas pessoas sensíveis que a gente encontra nos bares ou naquelas festas de casamento em que não conhecemos os noivos e que costuma dizer que o mundo é duro, injusto e cruel, enquanto pede mais um gin tónico com um ar superior, o tipo de gente que não dá para confiar, pois ao mais pequeno descuido apanha a sua alma, arranca-lhe os olhos, e aproveita-se dela para escrever um conto sem lhe pagar mil contos.
E, o pior, é que dessa vez tenho a impressão de que eu disse a verdade.

 

Edson Athayde

 

publicado por Lagash às 16:22
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Domingo, 4 de Maio de 2008

Destinos

 

 

Lígia Pereira de Sousa, 75 anos, solteira, prima em terceiro grau da Condessa de Ourique, moradora de um T5 no Restelo. Vive na companhia de Tareco, gato, cinco anos, rafeiro, sem parentes conhecidos, um presente de Octávio Francisco Magalhães de Almeida e Sousa, 43 anos, "bon vivant" e sobrinho querido.

Lígia tem a mania da limpeza e costuma banhar o Tareco uma vez por dia. neste momento, Ligia está a pôr o Tareco, todo molhado do seu último duche, a secar dentro de um forno de microondas. Tareco ainda protesta mas Lígia não se incomoda. Fecha a porta do microondas. Liga-o no máximo.

Enquanto isto, no Algarve, Paulo Monsanto de Carvalho, quatro anos, mais conhecido como Baby, está a construir um castelo de areia na Praia do Gigi. É neste preciso momento que, Tomás Cardoso de Oliveira, sete anos, sardento, caixa-d'óculos e mau carácter, prepara-se para chutar o castelo de Baby. Tomás não sabe, mas Baby jamais irá esquecer o dia em que o seu castelo foi destruído. O trauma por ver uma obra sua deitada, literalmente, abaixo transformará Baby num homem eternamente ressentido, incapaz de acabar um curso, formar uma família, fazer uma carreira e que acabará por entregar-se ao álcool.

Passados 30 anos deste fatídico dia, Baby encontrará casualmente Tomás, executivo bem sucedido, presidente de uma empresa importadora de bananas africanas, numa rua escura, ali pelos lados de Alfama. Não me pergunte o porquê mas Baby estará armado com uma pistola de alto calibre. Baby reconhecerá as sardas e os óculos de Tomás imediatamente. Tomás mal terá tempo de pedir perdão. Em segundos, estará no chão como o castelo que neste exacto momento ele chuta.

Enquanto isto, Alfredo Redondinho Costa, 33 anos, publicitário e “serial killer”, devora o seu pequeno almoço num café ao pé do Marquês de Pombal. O sonho de Alfredo era ser um artista plástico reconhecido internacionalmente. Porém, devido ao intenso ritmo do seu trabalho, a criar anúncios para vender lixívia de uma marca branca de supermercado ou hambúrgueres de uma conhecida rede de “fast food”, feitos a partir de restos de carne de porco, cavalo e papel jornal, nunca encontra tempo para dedicar-se à arte.

Para compensar essa frustação, Alfredo costuma assassinar desconhecidos. Executa-os usando com uma certa violência um taco de basebol. Depois esfola as suas peles, arranca os seus cabelos e com esse material constrói uma instalação na porão da sua casa. Alfredo tem o hábito de escolher as suas vítimas pela manhã no café onde está neste momento.

E é por isso que ele concentra a sua atenção em Vanessa Pires Moutinho, 27 anos, mulata brasileira de compleição física avantajada, nascida Sebastião Pires Moutinho, objecto de uma cirurgia de mudança de sexo na Suécia. Vanessa repara nos olhares de Alfredo e corresponde. Passados alguns minutos trocam os telefones.

Alfredo fica empolgado com a possibilidade de acrescentar um tom de pele mais escura à sua já imensa obra prima. Não sabe que Sebastião, digo, Vanessa, antes de se tomar dançarina de um bar de strippers da 24 de Julho, era porteiro de uma boate em Recife. Dona de uma força descomunal, será simples para Vanessa empalar, via anal, o psicopata com o seu próprio taco de basebol. Surpreendentemente, Alfredo morrerá com dor, mas morrerá feliz.

Enquanto isto, Pedro Saldanha Soares, 38 anos, filósofo formado numa universidade francesa, caminha pelo centro da cidade. Está a reflectir sobre a sua tese de doutoramento baseada no conceito da não existência do destino. Pedro defende que o homem, através do raciocínio dialéctico e da argumentação entrópica, pode controlar todos os passos da sua vida.

Pedro acredita que o destino não passa de uma invenção das almas ingénuas, uma herança abstracta da origem tribal da humanidade. Ele está a pensar nisso enquanto atravessa a rua sem perceber que um autocarro da linha Chelas-Rossio vem na sua direcção. Joaquim da Silva, 44 anos, ex-interno da Casa Pia, motorista, ainda tenta travar o autocarro mas é tarde demais.

Enquanto isto, Tareco arranha o vidro do microondas e dá a sua miada final.


Edson Athayde

publicado por Lagash às 18:57
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Domingo, 6 de Abril de 2008

Sem coração

Não tinha coração. Nasceu sem. Não que isso fosse um problema, uma crise no sistema, uma questão por aí além.

Não tinha coração. E isso era até uma vantagem, sublime malandragem, tendo em vista que, quem tem coração, costuma ser bobo. E ele, que não era nenhum menino de coro, nasceu para se dar bem.

Como não tinha coração, também não tinha sangue, como as santas, as baratas e as vamps. Mas tinha um propósito na vida, seria o dono do mundo, ou não se chamaria Raimundo, o que, além de uma rima, era uma solução.

Viveu sem escrúpulos, roubou doces aos miúdos, vendeu a mãe várias vezes, mas nunca entregou. Seguia à risca o seu plano selvagem, para tudo tinha coragem, até que um dia, daqueles normais em que apetece dar banho ao cão ou visitar a tia, Raimundo encontrou Maria Rita (ou Rita Maria, nunca soube ao certo), doce menina dos olhos verdes e sorriso aberto.

Rita Maria (ou Maria Rita) tinha ido à cidade fazer uma promessa, pois sofria de uma terrível mazela: amava ao próximo como a si mesma. O problema é que o próximo era sempre o que estava mais perto, fosse branco, preto ou amarelo, sem nenhuma descriminação de idade, sexo ou credo.

Maria Rita, com tanto amor para dar, recebia muito pouco. Sofria com aquele amor sem morada, sem nome, sem nexo, sem cara. daí ter feito uma promessa tão rara: se pudesse não amar um homem, fosse ele um politico, um mendigo ou artista, subiria o Everest de joelhos.

Raimundo, reparou em Rita Maria a fazer a promessa na igreja e apaixonou-se à primeira vista. Para quem não tinha coração, aquilo era muito, um despautério, um absurdo. Daí que Raimundo sentiu uma dor no peito. Era um coração que ali nascia meio sem jeito e quanto mais ele mirava Maria Rita mais o órgão crescia, crescia, crescia.

Rita Maria, afinal, deu pelo Raimundo, o outrora dono do mundo, mas agora um simples mortal. como por um milagre, não se apaixonou. Pelo contrário, sentiu escárnio, viu em Raimundo um pobre, um lixo, um chulo.

Raimundo, apaixonado, perdeu o rumo, perdeu o chão, perdeu tudo. passou a andar pelas ruas como um cão, a beber, a fazer poesias concretas em mau francês, típicas de um ébrio esteta que amava pela primeira vez.

Maria Rita sabia daquele amor impossível e ria-se do amante falhado, sem eira nem beira, vestido de trapos, que fazia vénias quando ela passava em direcção da padaria, da farmácia ou da missa.

Em pouco tempo, o coração de Raimundo já estava do tamanho de uma bomba, daquelas de cartoon, tipo assim redonda, com um pavio aceso na ponta, prestes a rebentar. Rita Maria não só sabia da triste história como ainda alimentava a paródia, fazia olhinhos sempre que o encontrava, mas depois travava qualquer investida.

Várias foram as vezes em que a sacripanta entrou na tasca para tripudiar do cretino, que chorava aos seus pés como um Deus menino, enquanto ela, indiferente, bebia uma Fanta.

Depois de uns tempos e de uns ventos de monção, Raimundo não aguentou e a bomba do seu coração estoirou, voando pedaços de paixão para todos os lados, emporcalhando jardins, muros, telhados.

Raimundo morreu num instante, desprezado enquanto amante, mas misteriosamente feliz. Como todos os apaixonados, mesmo os renegados, Raimundo teve, por um triz, a sorte madrasta de saber para que servia era um coração de verdade. E Maria Rita, na sua sublime maldade, aquela que amava a todos menos um, decidiu, um bocado na pressa, pagar sua promessa, rumando para o Nepal.

Mal lá chegou, apaixonou-se por um monge budista, chamado Ming, meio santo, meio autista, que, diziam as más línguas, era um ex-amante do Sting.

O monge, com um certo azedume, desprezou solenemente a donzela. que morreu como uma cadela, congelada de joelhos bem pertinho do cume.

O monge, não sem uma suspeita alegria, no lugar onde Rita Maria jazia, tentou sem sucesso plantar um arvoredo. de Raimundo, o que queria ser dono do mundo, ninguém guardou memória. e essa é a moral da história: quem tem coração, tem medo.

 

 

Edson Athayde

publicado por Lagash às 17:15
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Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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