Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Nas ervas

 

(Debora Salvalaggio)

 

Escalar-te lábio a lábio,

percorrer-te: eis a cintura

o lume breve entre as nádegas

e o ventre, o peito, o dorso

descer aos flancos, enterrar

 

os olhos na pedra fresca

dos teus olhos,

entregar-me poro a poro

ao furor da tua boca,

esquecer a mão errante

na festa ou na fresta

 

aberta à doce penetração

das águas duras,

respirar como quem tropeça

no escuro, gritar

às portas da alegria,

da solidão.

 

porque é terrivel

subir assim às hastes da loucura,

do fogo descer à neve.

 

abandonar-me agora

nas ervas ao orvalho -

a glande leve.

 

Eugénio de Andrade

publicado por Lagash às 16:17
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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Os teus pés

 

 

Quando não posso contemplar teu rosto,

contemplo os teus pés.

 

Teus pés de osso arqueado,

teus pequenos pés duros.

 

Eu sei que te sustentam

e que teu doce peso

sobre eles se ergue.

 

Tua cintura e teus seios,

a duplicada purpura

dos teus mamilos,

a caixa dos teus olhos

que há pouco levantaram voo,

a larga boca de fruta,

tua rubra cabeleira,

pequena torre minha.

 

Mas se amo os teus pés

é só porque andaram

sobre a terra e sobre

o vento e sobre a água,

até me encontrarem.

 

Pablo Neruda

 

publicado por Lagash às 16:02
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Sábado, 27 de Dezembro de 2008

Entre os teus lábios

 

("Lábios" de Sara Amaral - mais fotos da autora em www.olhares.com/Domaris ) 

 

Entre os teus lábios

é que a loucura acode,

desce à garganta,

invade a água.

 

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

 

Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

 

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

 

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.

 

Eugénio de Andrade

 

publicado por Lagash às 16:25
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