Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Carta (esboço)

 

 

Lembro-me agora que tenho de marcar um

encontro contigo, num sítio em que ambos

nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma

das ocorrências da vida venha

interferir no que temos para nos dizer. Muitas

vezes me lembrei que esse sítio podia

ser, até, um lugar sem nada de especial,

como um canto de café, em frente de um espelho

que poderia servir até de pretexto

para reflectir a alma, a impressão da tarde,

o último estertor do dia antes de nos despedirmos,

quando é preciso encontrar uma fórmula que

disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É

que o amor nem sempre é uma palavra de uso,

aquela que permite a passagem à comunicação

mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,

de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós

leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio

ser, como se uma troca de almas fosse possível

neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e

me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas

vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,

isto é, a porta tinha-se fechado até outro

dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então

as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem

sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar

um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos

para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que

é também a mais absurda, de um sentimento; e, por

trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia

seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores

do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos

encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que

o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí

que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,

que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo

das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

 

Nuno Júdice

 

publicado por Lagash às 16:16
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Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Carta

 

 

Não falei contigo

Com medo que os montes e vales que me achas

Caíssem a teus pés...

Acredito e entendo

Que a estabilidade lógica

De quem não quer explodir

Faça bem ao escudo que és...

 

Saudade é o ar

Que vou sugando e aceitando

Como fruto de verão

Nos jardins do teu beijo...

Mas sinto que sabes que sentes também

Que num dia maior serás trapézio sem rede

A pairar sobre o mundo

Em tudo o que vejo...

 

É que hoje acordei e lembrei-me

Que sou mago feiticeiro

Que a minha bola de cristal é folha de papel

Nela te pinto nua, nua

Numa chama minha e tua.

Numa chama minha e tua

 

Desconfio que ainda não reparaste

Que o teu destino foi inventado

Por gira-discos estragados

Aos quais te vais moldando...

E todo o teu planeamento estratégico

De sincronização do coração

São leis como paredes e tectos

Cujos vidros vais pisando...

 

Anseio o dia em que acordares

Por cima de todos os teus números

Raízes quadradas de somas subtraídas

Sempre com a mesma solução...

Podias deixar de fazer da vida

Um ciclo vicioso

Harmonioso ao teu gesto mimado

E à palma da tua mão...

 

É que hoje acordei e lembrei-me

Que sou mago feiticeiro

Que a minha bola de cristal é folha de papel

Nela te pinto nua, nua

Numa chama minha e tua.

Numa chama minha e tua.

 

Desculpa se te fiz fogo e noite

Sem pedir autorização por escrito

Ao sindicato dos deuses...

Mas não fui eu que te escolhi.

Desculpa se te usei

Como refúgio dos meus sentidos

Pedaço de silêncios perdidos

Que voltei a encontrar em ti...

 

É que hoje acordei e lembrei-me

Que sou mago feiticeiro...

 

...nela te pinto nua, nua

Numa chama minha e tua.

Numa chama minha e tua.

 

Ainda magoas alguém

O tiro passou-me ao lado

Ainda magoas alguém...

Se não te deste a ninguém

Magoaste alguém

A mim... passou-me ao lado.

A mim... passou-me ao lado.

 

Toranja 

 

 

Há muito que queria 'postar' este vídeo. Diz muito. Parabéns Toranja.

 

publicado por Lagash às 16:22
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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Ridiculamente...

 

 

Ridículo!

 

Estas palavras são ridículas! Como todas as palavras de amor são ridículas!

 

Não seriam de amor se não fossem ridículas! Estas, de tão ridículas, por analisarem o amor, são duplamente ridículas. Tão ridiculamente ridículas que é ridículo o quanto elas são!

 

Mas ridículo é aquele que nunca amou, não foi ridículo, e que não experimentou o ridículo do ciúme e a dor do amor ridículo!

 

Já fui ridículo, e ainda sou ridículo.

 

Serei sempre ridículo, porque mesmo que dure apenas um momento, prefiro um momento ridículo, que uma eternidade a chamar ridículo aos outros!

 

Mário L. Soares

(inspirado em "Todas as cartas de amor são ridículas" de Álvaro de Campos - heterónimo de Fernando Pessoa)

 

publicado por Lagash às 09:10
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Todas as cartas de amor são ridículas

 

 

Todas as cartas de amor são
Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

 

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

 

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

 

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

 

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

 

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

 

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).

 

 

Álvaro de Campos

publicado por Lagash às 13:34
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Domingo, 6 de Abril de 2008

Caro amigo deus - Capítulo II

Caro amigo deus,

 

O que é que me dizes da política? Qual é a tua opinião sobre o meio ambiente, e o aquecimento global? A fome em África? A sobrepopulação na Índia e na China? O abate de árvores na amazónia e o derrame de petróleo nos mares? A guerra do Iraque e o Comunismo? Os Estados Unidos como polícias do mundo? Qual é a tua opinião sobre isto?

 

Acho sinceramente que os Americanos às vezes abusam, são muito prepotentes e acham que tudo gira à volta deles. Se há qualquer coisa mal no mundo falam como se o país deles fosse o mundo! Dá voltas ao estômago… o mundo não é os Estados Unidos! E às vezes decidir por nós todos é um pouco anti-democrático! Não passei nenhuma procuração ao presidente deles para que tomasse decisões por mim. Até porque, acho que não é o bem-estar da humanidade que é o objectivo da política externa dos EUA, petróleo é mais o seu mote. Estarei errado? Às vezes sinto-me esquisito pensar assim, mas estou a ser sincero e o mais altruísta possível. Tu deverás ter a tua opinião… ou melhor tu tens com certeza a razão e sabes o que deve ou não ser feito. Porque não?

 

Aquecem os pólos, os pinguins e os ursos estão ameaçados, se tudo derrete, ficamos debaixo de água. Será isso que deve acontecer? É essa a nossa sina, o nosso fado? Estaremos a pagar os erros e abusos de séculos de maldade? Que culpa têm os que nascem hoje, relativamente àquilo que os outros fizeram antes? É isso justo? Não quero querer. Não acredito que sejas cruel a esse ponto. Penso em ti como o bem encarnado num ente incorpóreo, e não num político sem escrúpulos que pensa em mal menores quando enfrenta valores irrepreensíveis.

 

Vemos todos os dias desgraças nas notícias. Crianças morrem pela fome, pela doença, pela guerra, pela indiferença humana. O que fazer? Somos nós pequeninos que devemos fazer alguma coisa? Devemos comer menos quando enchemos o prato piramidalmente e nos enfartamos com comida? Ou então não deixar nada no prato para “não desperdiçar comida” como dizem os antigos? Será que fazer alguma das duas vai fazer alguma diferença para o pequeno João que morre à fome em Angola? Eu não posso ir a correr apanhar o avião para mandar o resto da minha comida para ele! Nem penso que deva ter culpa mortal por ter calculado mal a quantidade de arroz que pus no tacho.

 

Será que devo tornar-me voluntário numa dessas acções internacionais para ajudar os carenciados? Farei a diferença? Se salvar uma criança farei é certo… mas e os ricos? Quero dizer, os muito ricos, estou a referir-me aos muito ricos mesmo? Esses que apenas com os juros das suas poupanças podem tanto? Esses vão para o inferno, por não terem partilhado, se calhar, e com razão… mas o João morre na mesma… porque é que não ages nessas situações?

 

Os muito ricos, agem em acções de caridade, por vezes, é certo. Dão quantias enormes de quando em quando (quando as finanças lhes caiem em cima) e nós ficamos muito sensibilizados e até ficamos com vontade de comprar mais produtos informáticos por causa disso. Mas será que dão o que podem? Será que eu dou o que posso? Deverei preocupar-me comigo apenas? Eu contribuo, tu sabes disso! Dou o que posso, quando posso. E sabes bem que nunca vivi “à larga”. Será o suficiente? Não acho.

 

Ajuda-nos. Ajuda-me! Dá-me uma mão e decide por mim!

 

Sabes o que há no nosso coração. Sabes o quanto de bom e o quanto de obscuro temos no nosso coração – então age em conformidade. Pune os que nada de bom têm! Os que de bom têm, então ajuda e encaminha. Peço-te isso.

 

Com todo o respeito e admiração, e sem que queira, de alguma maneira alterar o teu humor, peço-te perdão.

 

Com os melhores cumprimentos

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 01:19
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Segunda-feira, 17 de Março de 2008

Lúbrica

 

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançastes, no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais,
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu neles, sempre, espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!

 

 
Cesário Verde

publicado por Lagash às 03:48
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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