Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

 

 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços...

 

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca... o eco dos teus passos...

O teu riso de fonte... os teus abraços...

Os teus beijos... a tua mão na minha...

 

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

 

E é como um cravo ao sol a minha boca...

Quando os olhos se me cerram de desejo...

E os meus braços se estendem para ti...

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 16:02
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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Adiamento

 

 

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... 

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, 

E assim será possível; mas hoje não... 

Não, hoje nada; hoje não posso. 

A persistência confusa da minha subjectividade objectiva, 

O sono da minha vida real, intercalado, 

O cansaço antecipado e infinito, 

Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico... 

Esta espécie de alma... 

Só depois de amanhã... 

Hoje quero preparar-me, 

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... 

Ele é que é decisivo. 

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... 

Amanhã é o dia dos planos. 

Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... 

Tenho vontade de chorar, 

Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... 

 

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. 

Só depois de amanhã... 

Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. 

Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... 

Depois de amanhã serei outro, 

A minha vida triunfar-se-á, 

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático 

Serão convocadas por um edital... 

Mas por um edital de amanhã... 

Hoje quero dormir, redigirei amanhã... 

Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância? 

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 

Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo... 

Antes, não... 

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. 

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. 

Só depois de amanhã... 

Tenho sono como o frio de um cão vadio. 

Tenho muito sono. 

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 

Sim, talvez só depois de amanhã... 

 

O porvir... 

Sim, o porvir...

 

Álvaro de Campos (14/04/1928)

 

publicado por Lagash às 16:11
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Sábado, 29 de Novembro de 2008

Estou Cansado

(foto retirada da internet - desconheço o autor) 

 

Estou cansado, é claro, 

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 

De que estou cansado, não sei: 

De nada me serviria sabê-lo, 

Pois o cansaço fica na mesma. 

A ferida dói como dói 

E não em função da causa que a produziu. 

Sim, estou cansado, 

E um pouco sorridente 

De o cansaço ser só isto — 

Uma vontade de sono no corpo, 

Um desejo de não pensar na alma, 

E por cima de tudo uma transparência lúcida 

Do entendimento retrospectivo... 

E a luxúria única de não ter já esperanças? 

Sou inteligente; eis tudo. 

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

 

Álvaro de Campos

publicado por Lagash às 16:16
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

“Não – respondi-lhe – é só cansaço!...”

 

 

“Não – respondi-lhe – é só cansaço!...”

 

Está tudo bem, mais coisa menos coisa é o que tenho dito. Não, não estou nada bem… Quero deixar de viver… - não é morrer – é mais fino! É qualquer coisa como não ter de sentir, não ter de comer, beber, amar nem sofrer…

 

Não me apetece nada. Apenas estar no nada… isso talvez. Mas mesmo assim tinha esta minha voz (eu) que me fala quando estou calado! É que “eu” não me calo! Chiça!

 

Não, nem no nada queria estar, o simples facto de existir aborrecia-me.

 

Teria saudades de algumas coisas? Sim… de certeza. Mas poucas. De pessoas, ainda mais, mas ainda menos…

 

Engraçado, estou com tendências suicidas…

 

Não tem piada nenhuma… Vou internar-me. Gosto muito de viver para querer morrer!, Se um tipo viesse ter comigo de pistola para me assaltar defendia-me! Ou então ficava sossegado e dava a carteira (era o mais certo). Seria, por lá no fundo querer levar com um balázio? Não! Se assim fosse dava-lhe uma cabeçada só para chatear.

 

Não tenho vontade de morrer. Não quero, pronto! Não me chateiem mais com isso!

 

Provavelmente estou com uma bruta depressão e completamente por baixo numa de contrabaixo acompanhado a saxofone em tom blues, com uma guitarra a gemer coisas de fazer fechar os olhos e curtir.

 

Humm… também não me parece. Encontram-me por vezes e dizem: “É pá! Tás com boa cara! Tas mesmo bem! A Sorrir… porreiro ver-te assim pá?” Serão as pessoas assim tão más julgadoras do estado de espírito das outras? Não percebem nada, não é? Pois – muito me parece que não. Mesmo as que nos conhecem há muito tempo – não lhes passa pela cabeça.

 

Mas o certo é que não me parece que tenha uma depressão. Isso é uma coisa que penso que já tive, e deve ser como o sarampo – só se tem uma vez. Ou então é permanente. Nunca nos deixa.

 

As depressões, que eu saiba deixam-nos em baixo o tempo todo – e eu tenho momentos de estar muito bem. Muito bem mesmo. Tenho alturas que consigo por todos os que estão à minha volta a rir, contagiados com a minha alegria. Isso é normal num deprimido?

 

Pois, se calhar sou bipolar! Bipolar é o nome que se dá aos maníaco-depressivos, mas agora é muito mais in chamar-se bipolar. E in significa que, para além de estar na moda é muito mais high-society. É a doença dos ricos. Dos tipos excêntricos (outra expressão interessante) que tão depressa lhes apetece mandarem-se com os seus Bentleys da ponta de Sagres para o Mar como estão a beber umas deliciosas tequilas com umas belas babes no bar mais badalado de Vilamoura. Bipolar é porreiro! É excêntrico quando está na mó de cima, e coitadinho quando está na mó de baixo. Seja como for está sempre bem acompanhado e rodeado de “amigos”.

 

Serei bipolar? Também acho que não… infelizmente. Punha-me à volta das babes em Vilamoura e era um sucesso! Numa semana já aparecia na Hello ou noutras revistas cor de rosa, todo vestido de branco para realçar um bronze de spray misturado com solário numa festa na praia com empregados pretos a servirem bebidas transparentes…

 

Realmente estou cansado. É só isso.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 19:05
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Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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