Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Eu vim de longe

 

 

Quando o avião aqui chegou

Quando o mês de Maio começou

Eu olhei para ti

E então entendi

Foi um sonho mau que já passou

Foi um mau bocado que acabou

 

Tinha esta viola numa mão

Uma flor vermelha na outra mão

Tinha um grande amor

Marcado pela dor

E quando a fronteira me abraçou

Foi esta bagagem que encontrou

 

Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei p’ra aqui chegar

Eu vou p’ra longe

P’ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos p’ra nos dar

 

E então olhei à minha volta

Vi tanta esperança andar à solta

Que não hesitei

E os hinos cantei

Foram frutos do meu coração

Feitos de alegria e de paixão

 

Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei p’ra aqui chegar

Eu vou p’ra longe

P’ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos p’ra nos dar

 

Quando a nossa festa se estragou

E o mês de Novembro se vingou

Eu olhei p’ra ti

E então eu entendi

Foi um sonho lindo que acabou

Houve aqui alguém que se enganou

 

Tinha esta viola numa mão

Coisas começadas noutra mão

Tinha um grande amor

Marcado pela dor

E quando a espingarda se virou

Foi p’ra esta força que apontou

 

Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei p’ra aqui chegar

Eu vou p’ra longe

P’ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos p’ra nos dar

 

E então olhei à minha volta

Vi tanta mentira andar à solta

Que me perguntei

Se os hinos que cantei

Eram só promessas e ilusões

Que nunca passaram de canções

 

Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei p’ra aqui chegar

Eu vou p’ra longe

P’ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos p’ra nos dar

 

Quando eu finalmente eu quis saber

Se ainda vale a pena tanto crer

Eu olhei para ti

E então eu entendi

É um lindo sonho para viver

Quando toda a gente assim quiser

 

Tenho esta viola numa mão

Tenho a minha vida noutra mão

Tenho um grande amor

Marcado pela dor

E sempre que Abril aqui passar

Dou-lhe este farnel para o ajudar

 

Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei p’ra aqui chegar

Eu vou p’ra longe

P’ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos p’ra nos dar

 

E agora eu olho à minha volta

Vejo tanta raiva andar a solta

Que já não hesito

Os hinos que repito

São a parte que eu posso prever

Do que a minha gente vai fazer

 

Eu vim de longe

De muito longe

O que eu andei p’ra aqui chegar

Eu vou p’ra longe

P’ra muito longe

Onde nos vamos encontrar

Com o que temos p’ra nos dar

 

José Mario Branco

 

publicado por Lagash às 16:14
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Sábado, 25 de Abril de 2009

Portugal Ressuscitado

 

 

Depois da fome, da guerra

da prisão e da tortura

vi abrir-se a minha terra

como um cravo de ternura.

 

Vi nas ruas da cidade

o coração do meu povo

gaivota da liberdade

voando num Tejo novo.

 

Agora o povo unido

nunca mais será vencido

nunca mais será vencido

 

Vi nas bocas vi nos olhos

nos braços nas mãos acesas

cravos vermelhos aos molhos

rosas livres portuguesas.

 

Vi as portas da prisão

abertas de par em par

vi passar a procissão

do meu país a cantar.

 

Agora o povo unido

nunca mais será vencido

nunca mais será vencido

 

Nunca mais nos curvaremos

às armas da repressão

somos a força que temos

a pulsar no coração.

 

Enquanto nos mantivermos

todos juntos lado a lado

somos a glória de sermos

Portugal ressuscitado.

 

Agora o povo unido

nunca mais será vencido

nunca mais será vencido.

 

José Carlos Ary dos Santos

Caxias, 26 de Abril de 1974

 

 

publicado por Lagash às 16:08
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Grândola Vila Morena

 

 

Precisamente às 00h20 e 19 segundos, (faz hoje e agora 35 anos) a segunda senha para a revolução dos cravos foi transmitida pela Rádio Renascença.

 

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, ó cidade

 

Dentro de ti, ó cidade

O povo é quem mais ordena

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

 

Em cada esquina, um amigo

Em cada rosto, igualdade

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

 

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada rosto, igualdade

O povo é quem mais ordena

 

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

Jurei ter por companheira

Grândola, a tua vontade

 

Grândola a tua vontade

Jurei ter por companheira

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

 

José Afonso

 

publicado por Lagash às 00:20
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Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Primeira senha da revolução dos cravos

Precisamente às 22h55 do dia 24 de Abril de 1974,(faz hoje e agora 35 anos) a primeira senha para a revolução dos cravos foi transmitida pela Rádio Renascença.

 

Foi o “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho.

 

(confirmação do início das operações - documento secreto do MFA) 

 

publicado por Lagash às 22:55
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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

E foi assim que Abril chegou…

 

(o cartaz mais emblemático da revolução dos cravos) 

 

Para os caros leitores que queiram ver-me actuar, podem fazê-lo amanhã 24 de Abril, pelas 22h00, na Casa da Cultura de Loulé, Edifício Duarte Pacheco na Praça da República em Loulé (mesmo em frente ao edifício principal da Câmara Municipal de Loulé), na peça de teatro “E foi assim que Abril chegou…” que consiste num trabalho colectivo do T.A.L. – Teatro Análise de Loulé, de que faço parte.

 

Estreámos esta peça em Maio de 1999 e vamos repô-la agora. Estará, provavelmente, apenas amanhã em cena – será portanto uma oportunidade única de a ver.

 

Aconselho a todos que reservem ou comprem os bilhetes com antecedência, já que a sala é pequena e esgotará facilmente.

 

Os contactos da CCL são:

 

Casa da Cultura de Loulé:

Telefone: 289 41 58 60

Fax: 289 41 58 60

E-mail:  ccloule@ccloule.com

Web: www.ccloule.com

 

Horário de funcionamento:

das 10h às 13h e das 15h às 19h

de Segunda a Sexta-Feira

 

Localização:

Edifício Duarte Pacheco nº 36, 1º

Praça da República

8100-269 Loulé

 

Espero que gostem.

 

Mário L. Soares

 

 

publicado por Lagash às 10:13
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Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Parabéns aos capitães!

Há alguns anos atrás,

Estava eu com alguns meses,

Na minha consulta de rotina,

Passava-se em Portugal,

Sem eu, pequenino, perceber,

Algo que mudaria a minha vida,

A vida de qualquer Português.

 

Diga as más linguas o que quiserem...

Sem a revolução, estes país estava na m...!

 

Parabéns aos capitães...

 

"...Foi um sonho mau que já passou..."

 

Gozem o Abril... porque quem sabe se "houve aqui alguém que se enganou..."

 

Abraços

Mário L. Soares (citações Zé Mário Branco)

 

 

publicado por Lagash às 16:37
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As portas que Abril abriu!

 

  

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas   sobredos
vales   socalcos   searas
serras   atalhos   veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

 

 

 

 


Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelos dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas   sobredos
vales   socalcos   searas
serras   atalhos   veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo   capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.



Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.



Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
Pois também ele   humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
-   pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
-   é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.



E então por vinhas   sobredos
vales   socalcos   searas
serras   atalhos   veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados   "páras"
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas   vindas   esperas
encontros   esquinas   e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado   amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.



Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer   a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enchadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa   capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas   sobredos
vales   socalcos   searas
serras   atalhos   veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu   vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu   vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários   mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias   pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos   carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios   boatos   murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então   se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos ao pé
juntos   soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos   não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados de balcões
mulheres a dias   pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos   carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
-   cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas   vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso   o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta   tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
-   Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos   seguros   petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes   portos   navios
e outras coisas para erguer
antenas   centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo   capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas   sobredos
vales   socalcos   searas
serras   atalhos   veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros   fascistas
agiotas do lazer
latifundiários   machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

 

 

 

 

 

 

José Carlos Ary dos Santos

 


 

publicado por Lagash às 01:45
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Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Abril de sim, Abril de Não

 

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.
Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.
 

Manuel Alegre

publicado por Lagash às 01:37
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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