Sábado, 7 de Março de 2009

Há palavras que nos beijam

 

 

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto,

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas, inesperadas

Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído,

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.  

 

Alexandre O’Neill

 

 

publicado por Lagash às 16:09
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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

De entre margens

 

 

...das raízes... e sem métrica:

 

Donde vens douto caminhante?

Do Sul, do Norte ou do Oriente?

De entre margens e ondas de luz!

Onde o pensamento conduz

As bases da civilização.

 

Venho dessa infinita corrente,

iluminou caminhos da gente

que em pioneirismo se traduz

e nunca à apatia se reduz

porque novos rumos surgirão.

 

Sou um produto consciente

de mares de liberdade reluzente

E ainda que carregando uma cruz

Salto abismos que o sonho produz

Do Egeu à Atlântica tradição.

 

José Faustino

 

publicado por Lagash às 16:07
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Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Trajecto

 

(Mia Couto - foto de Alfredo Cunha) 

 

Na vertigem do oceano

vagueio

sou ave que com o seu voo

se embriaga

Atravesso o reverso do céu

e num instante

eleva-se o meu coração sem peso

Como a desamparada pluma

subo ao reino da inconstância

para alojar a palavra inquieta

Na distância que percorro

eu mudo de ser

permuto de existência

surpreendo os homens

na sua secreta obscuridade

transito por quartos

de cortinados desbotados

e nas calcinadas mãos

que esculpiram o mundo

estremeço como quem desabotoa

a primeira nudez de uma mulher

 

Mia Couto – Setembro 1980

 

publicado por Lagash às 16:18
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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

O Infante

 

(cena "O infante" na peça de teatro "Mensagem" pelo grupo TAL - Teatro Análise de Loulé, em 2008 - Foto de Vasco Célio)  

 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 

Deus quis que a terra fosse toda uma, 

Que o mar unisse, já não separasse. 

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, 

 

E a orla branca foi de ilha em continente, 

Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 

E viu-se a terra inteira, de repente, 

Surgir, redonda, do azul profundo. 

 

Quem te sagrou criou-te português. 

Do mar e nós em ti nos deu sinal. 

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. 

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

 

Fernando Pessoa em “Mensagem”

 

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Nascimento do Infante D. Henrique - O Navegador

 

 

(estátua do Infante D. Henrique da autoria de Leopoldo de Almeida, por ocasião das comemorações dos 500 anos da sua morte em Lagos) 

 

 

Nasceu no dia 4 de Março de 1394, no Porto. Morreu a 13 de Novembro de 1460, na Vila de Sagres, no Algarve, o Infante D. Henrique. Morreu portanto com 66 anos.

 

O Infante D. Henrique, foi o 3º dos 6 filhos de D. João I, mestre de Avis e que fundou a geração com o mesmo nome. Ele e seus irmãos constituem a Ínclita Geração – nome atribuído aos filhos de D. João I e Filipa de Lencastre – de que fazem parte, D. Duarte, Rei de Portugal, D. Pedro, Duque de Coimbra, D. Isabel de Portugal, mulher de Filipe III, Duque de Borgonha, Infante João de Portugal, 3º Condestável de Portugal e avô de D. Isabel de Castela e D. Manuel I, e por último D. Fernando, o Infante Santo.

 

Com tais “grandes almas” suas “pares”, como referiu a respeito de seus irmãos, na boca do Infante D. João de Portugal, Fernando Pessoa na Mensagem, o Infante D. Henrique foi talvez o que, de todos, mais se destacou pelos seus feitos de conquista, manutenção e colonização de território, mas principalmente de descoberta. Como foram a descoberta e colonização dos arquipélagos Madeira, os Açores, e Cabo Verde, a passagem do Cabo Bojador e Cabo Branco.

 

O Navegador, como ficou para a história, foi armado cavaleiro e recebeu os títulos de Duque de Viseu, Senhor da Covilhã, e foi Grão-mestre da Ordem de Cristo, sucessora da Ordem dos Templários.

 

Figura altiva e inconfundível é hoje um símbolo nacional adoptado por diversas instituições, organismos e empresas. Foi e é tema de poesia e prosa, e é a figura de destaque num dos mais conhecidos monumentos nacionais – o padrão dos descobrimentos, mandado erigir por Salazar – entre os 30 ilustres aí representados.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 10:17
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

Labirinto de mim

 

(Labirinto da Villa Pisani em Veneza) 

 

Perco-me diariamente no labirinto

de mim. Penso e repenso tudo o que penso.

Analiso e preciso as coisas que sinto,

e leio o enleio do extenso que penso.

 

Fito perdido no sentido dum conto,

sem história e memória – paro e estanco.

Sentado, fechado, na vírgula, no ponto,

reflicto, subtraio e adito, e arranco.

 

Mastigo as imagens das personagens,

bebo o sumo das coisas do mundo.

Olho para tudo e tenho miragens.

 

Parto e reparto o que já está desnudo,

e passo p’lo espaço que é a minha vida,

para mim o nada e o tudo é estudo.

 

Mário L. Soares

 

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Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Retramento

 

 

Vou levar-te para casa - tomar conta de ti

Dar-te um bom banho, vestir-te um pijama e…

Fazer-te uma papinha, meter-te na caminha

Ler-te uma historinha e deixar-te bem calminha

Ouve bem: Preciso de alguém do meu lado

Que me dê um bom dia com um sorriso bem rasgado

Amor pela manhã, pela tarde e pelo fim do dia

Mais um pouco quando sonho era o que eu queria

Não é preciso muito, é muito simples na verdade

Só quero amor bom, carinho, solidariedade

Faz-me rir e eu prometo que não te faço chorar

Trata bem de mim e eu bem de ti vou tratar

 

Olá nina, quero tratar de ti

Dar-te este mundo e o outro tenho tudo aqui

Chega só um pouco perto de mim

Acredita que nunca me senti assim

 

Trata-me bem – eu juro que suo sangue por ti

Faz a coisa certa como o Spike Lee

Podes usar e abusar tipo brinquedo favorito

Mas tem cuidado, por favor, não o deixes partido…

Dou-te tudo o que puder, tudo o que tiver

O que não tiver tiro aos deuses para a minha mulher!

Roubamos um foguete, vamos dar uma volta até à Lua

Escrevo um livro pelo caminho com a alma toda nua

Procriamos como coelhos e quando nos derem pelos joelhos

Procriamos mais um pouco porque eu adoro fedelhos

Escrevo o teu nome no meu corpo para toda a gente ver

Bem piroso e lamechas, como o amor deve ser… verdadeiro!!!

 

Olá nina, quero tratar de ti

Dar-te um mundo e o outro tenho tudo aqui

Chega só um pouco perto de mim

Acredita que nunca me senti assim

 

Gostas de filmes? Podíamos fazer um bem privado…

Eu escrevo, realizo e actuo do teu lado

Podes ser a minha estrela, vou-te dar um bom papel

Pouca palavra, muita acção, acredita que é mel

Nasceste para isto, tá tudo previsto

Por isso insisto e não resisto a dar-te mais um pouco disto

Amor puro, fresco como a brisa do mar

Tenho montes dele guardado, e tá quase a estragar

Envelheço ao teu lado, eu bem gordo tu bem magra

Acabamos com o stock nacional de Viagra

Faz-me rir e eu prometo que não te faço chorar

Trata bem de mim e eu bem de ti vou tratar

 

Olá nina, chega (aqui) ao pé de mim

Deixa-me dar-te o que tu mereces

Tu és a resposta para as minhas preces

Senta-te aqui vou-te cantar um som

Doce como tu, como um bombom

 

Olá, nina quero tratar de ti

Dar-te um mundo e o outro tenho tudo aqui

Chega só um pouco perto de mim

Acredita que nunca me senti assim

 

Da Weasel

 

publicado por Lagash às 16:20
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Domingo, 1 de Março de 2009

Língua Mater Dolorosa

 

 

Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda a bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luís Vaz a chama joalhada

 

tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

 

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus verbos feridos vão de maca.

 

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda... mas de vaca.

 

Natália Correia em “Inéditos” - 1973

 

publicado por Lagash às 16:04
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Morte de Vergílio Ferreira

 

 

Vergílio António Ferreira nasceu em Melo, Gouveia a 28 de Janeiro de 1916 e morreu em Lisboa a 1 de Março de 1996.

 

Embora formado como professor, foi como escritor que mais se distinguiu. O seu nome continua actualmente associado à literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, foi galardoado com o Prémio Camões.

 

A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neo-realismo e o Existencialismo. Considera-se que Mudança é a obra que marca a transição entre os dois períodos.

 

Filho de António Augusto Ferreira e de Josefa Ferreira. Em 1920, os pais de Vergílio Ferreira emigram para os Estados Unidos, deixando-o, com seus irmãos, ao cuidado de suas tias maternas. Esta dolorosa separação é descrita em “Nítido Nulo”. A neve - que virá a ser um dos elementos fundamentais do seu imaginário romanesco é o pano de fundo da infância e adolescência passadas na zona da Serra da Estrela. Aos 10 anos, após uma peregrinação a Lourdes, entra no seminário do Fundão, que frequentará durante seis anos. Esta vivência será o tema central de Manhã Submersa.

 

Em 1932, deixa o seminário e acaba o Curso Liceal no Liceu da Guarda. Entra para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, continuando a dedicar-se à poesia, nunca publicada, salvo alguns versos lembrados em Conta-Corrente e, em 1939, escreve o seu primeiro romance, “O Caminho Fica Longe”. Licenciou-se em Filologia Clássica em 1940. Conclui o Estágio no Liceu D.João III (1942), em Coimbra. Começa a leccionar em Faro. Publica o ensaio “Teria Camões lido Platão?” e, durante as férias, em Melo, escreve “Onde Tudo Foi Morrendo”. Em 1944, passa a leccionar no Liceu de Bragança, publica “Onde Tudo Foi Morrendo” e escreve “Vagão ‘J’”. Vergílio Ferreira morre em Lisboa, a 1 de Março de 1996 e é sepultado em Melo.

 

 

 

Atravessa a sua obra o discurso da solidão, como um dos aspectos mais profundos da condição humana, sempre acompanhado pelo silêncio, que advém do abandono da entidade divina.

 

Perpassa, na obra deste autor, uma tentativa de elevar os problemas individuais à generalidade dos Homens uma vez que não se refere a um “eu” que fala de si, mas um “EU” mais amplo que se refere a todos os Homens. Qualquer que seja a problemática tratada pelo este autor ela parte da reflexão sobre a questão do “eu” mas essa questionação avança, quase sempre, no sentido do homem ao Homem.

 

De qualquer forma, verificamos que em Vergílio Ferreira, a consciência do “eu” e da sua solidão se manifestam através da visão, instrumento privilegiado de acesso ao pensamento reflexivo. As personagens de Vergílio Ferreira assumem um papel questionador, procurando esse sentido uma vez que o mundo aparecia (…) sob a forma de uma absurda estupidez.

 

Por este motivo, Carlos Ceia observa que “o romance de Vergílio Ferreira é uma interrogação sobre a humanidade do homem”.

 

Os protagonistas de Vergílio Ferreira são, antes de mais, questionadores e problematizores do real: uns desvinculadas ou em vias de se desvincularem da vida; outros, à procura de uma Estrela Polar, guia no caminho ou à espera da resposta “E se Deus não existisse?”.

 

Durante treze anos (1981-1994) Vergílio Ferreira publicou nove volumes de diário, ao qual pôs o título genérico de Conta-Corrente. Os textos contidos nesses volumes vão desde Fevereiro de 1969 (altura em que iniciou a sua escrita) até Dezembro de 1992 (altura em que terá abandonado o género). Os volumes subdividem-se em duas séries: a primeira composta por cinco volumes e a segunda composta por quatro volumes.

 

A publicação do diário de Vergílio Ferreira foi uma das poucas tempestades na bonançosa comunidade literária pós 25 de Abril, como também é «um documento precioso sobre a evolução das ideias do século XX português. Vergílio Ferreira era um homem atento a tudo aquilo que o rodeava, quer tivesse interesse político, ou social, ou estético, ou literário. O seu diário veio, assim, agitar a comunidade portuguesa pensante, criando alguns focos de conflito por um lado e manifestações de apoio por outro.

 

O autor já tinha por várias vezes tentado escrever um diário, mas foi só em 1969 que leva o seu projecto em frente: «Fiz cinquenta e três anos há dias. (...) É a opinião do Registo Civil (...). E então lembrei-me: e se eu tentasse uma vez mais o registo diário do que me foi afectando?». Esta frase é sem dúvida elucidativa das intenções do autor: primeiro, tentar escrever um registo diário; segundo, escrever nele tudo aquilo que o foi marcando. Nesta frase também se pode verificar que não é a primeira vez que o autor tenta escrever um diário: «e se eu tentasse mais uma vez».

 

O tentar escrever um diário é algo que está sempre presente, e, muitas vezes, a escrita desse mesmo diário torna-se difícil, pois o autor sente que se está a expor em demasiado perante o leitor, sente que o leitor pode “lê-lo”: «Extremamente difícil continuar este diário. (...) Que me leiam um romance, não me perturba. Mas não que me leiam a mim.» Existe a questão do íntimo sempre presente ao longo deste volume e o próprio autor refere que colocar ao alcance dos seus leitores a sua intimidade, os seus desabafos, não é propriamente algo que lhe agrada: «o desejo de “desabafar” não é propriamente um desejo sublime». Apesar de tudo a escrita do diário prossegue.

 

Mas, o que levou o autor a continuar o seu diário?

 

Segundo Eduardo Prado Coelho o diário «recorta sobre um fundo de impossibilidade de escrita. É na medida em que Vergílio Ferreira não tem a certeza de ser capaz de escrever ainda que suporta deslizar para este devir - feminino da escrita de um diário». O próprio Vergílio Ferreira coloca uma condição para continuar a escrever o diário: «A continuar, só optando pelo registo que transcende os limites pessoais.». No entanto, a escrita do diário prosseguiu.

 

Fonte: Wikipédia

 

 

publicado por Lagash às 10:22
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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