Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Bebido o luar

 

 

Bebido o luar, ébrios de horizontes,

Julgamos que viver era abraçar

O rumor dos pinhais, o azul dos montes

E todos os jardins verdes do mar.

 

Mas solitários somos e passamos,

Não são nossos os frutos nem as flores,

O céu e o mar apagam-se exteriores

E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

 

Por que jardins que nós não colheremos,

Límpidos nas auroras a nascer,

Por que o céu e o mar se não seremos

Nunca os deuses capazes de os viver.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

publicado por Lagash às 16:24
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Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Felicidade

 

 

Pela flor pelo vento pelo fogo

Pela estrela da noite tão límpida e serena

Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo

Pelo amor sem ironia – por tudo

Que atentamente esperamos

Reconheci a tua presença incerta

Tua presença fantástica e liberta

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

publicado por Lagash às 16:13
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Sábado, 18 de Julho de 2009

A hora da partida

 

 

A hora da partida soa quando

escurece o jardim e o vento passa,

estala o chão e as portas batem, quando

a noite cada nó em si deslaça.

 

A hora da partida soa quando

as árvores parecem inspiradas

como se tudo nelas germinasse.

 

Soa quando no fundo dos espelhos

me é estranha e longínqua a minha face

e de mim se desprende a minha vida.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

publicado por Lagash às 16:10
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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Com Fúria e Raiva

 

 

Com fúria e raiva acuso o demagogo

E o seu capitalismo das palavras

 

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada

Que de longe muito longe um povo a trouxe

E nela pôs sua alma confiada

 

De longe muito longe desde o início

O homem soube de si pela palavra

E nomeou a pedra a flor a água

E tudo emergiu porque ele disse

 

Com fúria e raiva acuso o demagogo

Que se promove à sombra da palavra

E da palavra faz poder e jogo

E transforma as palavras em moeda

Como se fez com o trigo e com a terra

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, em "O Nome das Coisas"

 

publicado por Lagash às 16:12
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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Paisagem

 

(Ilha de Matakana na Nova Zelândia) 

 

Passavam pelo ar aves repentinas,

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam na areia as suas crinas.

 

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,

Era a carne das árvores elástica e dura,

Eram as gotas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.

 

Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento

Era o livre e luminoso chamamento

Da asa dos espaços fugitiva.

 

Eram os pinheirais onde o céu poisa,

Era o peso e era a cor de cada coisa,

A sua quietude, secretamente viva,

E a sua exalação afirmativa.

 

Era a verdade e a força do mar largo,

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

publicado por Lagash às 16:21
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Um dia

(retirada da internet - desconheço o autor da foto) 

 

Um dia, gastos, voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

 

O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados irreais

E há-de voltar aos nossos membros lassos

A leve rapidez dos animais.

 

Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais na voz do mar

E em nós germinará a sua fala.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

publicado por Lagash às 16:19
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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Pátria

 

(foto da autoria Rui Breia - Quinas) 

 

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exactidão

Dum longo relatório irrecusável

 

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas

 

— Pedra rio vento casa

 

Pranto dia canto alento

Espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro

Eu minha vida daria

E vivo neste tormento

 

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

publicado por Lagash às 16:14
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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