Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Silêncio

 

 

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;

redoma de cristal este silêncio imposto.

Que lívido museu! Velado, sepulcral.

Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

 

Um hálito de medo embaciando o vidrado

dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.

Na silente armadura, e sobre si fechado,

ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

 

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós

que a própria voz do mar segue o risco de um disco...

Não cessa de tocar; não cessa a sua voz.

Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

 

David Mourão-Ferreira

 

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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Espera

 

Horas, horas, sem fim,

pesadas, fundas,

esperarei por ti

até que todas as coisas sejam mudas.

 

Até que uma pedra irrompa

e floresça.

Até que um pássaro me saia da garganta

e no silêncio desapareça.

 

Eugénio de Andrade

 

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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Poema XXII de Elementos

 

(Dolmen de Ballykeel na Irlanda) 

 

Ah! Não me enterrem vivo!

Não me fechem num caixão com o silêncio.

Ao lado do Grito.

Quando eu morrer

estendam-me numa rocha nua.

E deixem-me ser devorado pelas pedras.

Pelos bicos das nuvens.

Morte é liberdade.

Ar.

 

José Gomes Ferreira

 

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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Solidão

 

 

Aproximo-me da noite

o silêncio abre os seus panos escuros

e as coisas escorrem

por óleo frio e espesso

 

Esta deveria ser a hora

em que me recolheria

como um poente

no bater do teu peito

mas a solidão

entra pelos meus vidros

e nas suas enlutadas mãos

solto o meu delírio

 

É então que surges

com teus passos de menina

os teus sonhos arrumados

como duas tranças nas tuas costas

guiando-me por corredores infinitos

e regressando aos espelhos

onde a vida te encarou

 

Mas os ruídos da noite

trazem a sua esponja silenciosa

e sem luz e sem tinta

o meu sonho resigna

 

Longe

os homens afundam-se

com o caju que fermenta

e a onda da madrugada

demora-se de encontro

às rochas do tempo

 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 

publicado por Lagash às 16:18
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Domingo, 5 de Abril de 2009

Foz

 

(Foz do Rio São Francisco no Brasil) 

 

 

És a minha foz

de lava e lume

 

Eu sou o rio

de águas separadas

 

Tu és a seta

de vício e de veneno

 

Eu sou a voz

onde invento o nada

Tu és o meu lavor

eu sou a bordadeira

 

És o meu anjo

de asas decepadas

 

Eu sou a distância

tu és a colmeia

 

Tu és o silêncio

e eu sou a tua espada

 

Maria Teresa Horta

 

publicado por Lagash às 16:21
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Sexta-feira, 13 de Março de 2009

O amor, dizes-me

 

 

Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio

suspenso dos gestos com que elas desenham

cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias

que delas dependem. Por vezes, porém, as

palavras são o seu próprio silêncio. Nascem

de uma espera, de um instante de atenção, da

súbita fixidez dos olhos amados, como se

também houvesse coisas que não precisam de

palavras para existir. É o caso deste sentimento

que nasce entre um e outro ser, que apenas

se adivinha enquanto todos falam, em volta,

e que de súbito se confessa, traduzindo em

breves palavras a sua silenciosa verdade.

 

Nuno Júdice em "Pedro, lembrando Inês"

 

publicado por Lagash às 16:26
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Sábado, 7 de Março de 2009

Há palavras que nos beijam

 

 

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto,

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas, inesperadas

Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído,

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.  

 

Alexandre O’Neill

 

 

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Foi-se o sono e olho a água

 

 

Foi-se o sono e olho a água

Dos meus olhos estancados;

Lá fora, um rumor de aves

Evoca aromas molhados.

 

A luz alta fere as casas

Brancas de neve, fluidas;

Meu corpo é um prado seco

Onde caem estrelas húmidas.

 

Reflexos de sonhos idos

Limitam-me o pensamento;

Os ramos das árvores escondem

Silêncios desaparecidos

 

Ruy Cinatti

 

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Domingo, 18 de Janeiro de 2009

É urgente o amor

 

(Foto de um mural na Escola EB  2/3 de Paranhos do agrupamento Eugénio de Andrade - desconheço o autor da foto http://agrupamento-eugenioandrade.org/index.php?option=com_expose&Itemid=85 ) 

 

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

 

É urgente destruir certas palavras,

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.

 

Cai o silêncio nos ombros e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.

 

Eugénio de Andrade

 

publicado por Lagash às 16:15
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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Silêncio

 

(foto retirado da internet - desconheço o autor) 

 

Parar o mundo e dormir

Colocar uma pausa na música

Burburinho a tinir…

Cobrir o céu com a túnica

 

Silenciar os pássaros a voar,

Calar as bocas que falam,

Segurar assobio no ar.

Param as coisas que estalam…

 

Tudo está calmo e parado,

Todos somos nós e os outros,

Nada está mais que calado.

 

Todo o som nos dá calma,

Só o coração bate aos socos,

E o silêncio, a música da alma.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:16
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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Súplica

 
(foto retirada da internet - desconheço o autor) 
 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

Miguel Torga

 

publicado por Lagash às 16:09
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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