Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Futuro

 

 

Primei agora pelo futuro

Olho alheado o presente

Deparo assim com um muro

Parede tijolo quente

 

Volto à volta à solução

Esquema de passagem

Rotundo corrente de acção

Pronto para a viagem

 

Agarra-me atrás a barreira

Prende e parte-me os braços

Segura-me de qualquer maneira

 

Rasgo de sangue roupagem

Lágrimas correm no espaço

E caio no solo em miragem

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:12
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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Mar, mar e mar

 

 

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que a minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exactamente no meu coração

O mar volta a ser pequeno e meu,

anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

Eugénio de Andrade

 

publicado por Lagash às 16:27
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O beijo de Judas

 

 

Aquele que escreve será traído

um dia algum leitor apontará

a palavra interdita

e o sentido escondido no sentido.

O beijo de Judas está dentro da própria escrita

e aquele que escreve está

perdido. De nada serve

dizer este é o meu vinho este é o meu pão.

O beijo de Judas vai ser dado. Quem escreve

tem uma lança apontada ao coração.

 

Não se perdoa a dádiva de si

a canção que se canta ou a breve tão breve

alegria de partilhar o corpo e a palavra.

Quem reparou em Getsemani

naquele que não se ria nem se dava?

Já outra vez se levantou e se deteve

alguém vai ser traído agora aqui

seu olhar te designa: Tu és aquele que escreve

e a tua própria mão aponta para ti.

 

Manuel Alegre

 

publicado por Lagash às 16:20
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Magnólias

 

 

nascem vazias de amarelo

as magnólias que se inclinam

oblíquas a uma terra despovoada

da dimensão da flor

murmuram suas pétalas pelo vento

galopante e assustado fugido dos

desertos que eram florestas

 

lentas azuis as estrelas estalam

agapantos jacarandás

sangue adormecido dos fenómenos

que os olhos à luz fazem desaparecer

 

ausentes as asas adormecem

trilhos estilhaçados na terra

onde o longe e a distância

permanecem na tortura

do pensamento

sem etecétera

 

Ó as searas de flores os

gerânios as açucenas

os corações abertos dos rapazes

aos lilases

perfume de entrega permanente

musculado e frágil advento

de um tempo que há-de partir

mergulhado nos estames das mãos

para se transmutar em beijos

oferecidos às bocas

 

no chão da terra aturada e escura

as magnólias pálidas sombrias

escorrem mel torturado e morno

onde rapazes deixam o abraço

doce permanente como o pecado

 

o orvalho da manhã reclama as

magnólias que fecundadas devolvem

à terra o sangue

dos rapazes exaustos cansados

 

é manhã a terra toda de repente

desmaia atormentada nua e quente

 

Henrique Levy

 

publicado por Lagash às 16:29
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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

As Barreiras da Vida

 

(foto de Oliver Ross) 

 

Estão barradas as portas

Blocos grandes de cimento

Cobrem de negro rosas mortas

Que jazem no chão eternamente

 

São vidas perdidas, paradas…

Pára o sangue que está a morrer,

Pede perdão às pedras suadas

E uma nova razão de viver!

 

A mão que rasga o tijolo rugoso,

Que empurra a murro a pedra imóvel

Que lava de lágrimas o concreto orgulhoso.

 

Bate no coração que quer viver

Volve dentro do peito de raiva!

Será ele que o irá vencer…

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:16
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Medo do escuro

 

 

Sombrias as estradas,

As esquinas, o beco,

Sons crepitantes ecoam na noite,

Luzes errantes deixam-te cego,

O medo entranha quando sobes a escada.

 

Abres a porta e há escuro à frente,

Vais devagar, pé ante pé,

Algo te diz – está ali mais alguém…

Tremem as pernas, não sabes o que é!

Pensamentos de sangue turvam-te a mente.

 

Pegas numa faca e segues p’ro quarto,

Deténs-te na entrada sem respirar,

Encostas o ouvido p’ra tentar ouvir

Empurras a porta, bem devagar

Corre o gato e dás um salto!

 

 

 

Pousas a faca e respiras cansado,

O alívio agora é estar tudo parado,

Sabes então, que nada fez sentido,

Tudo era pensamento perdido…

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:00
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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