Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

O Mistério

 

 

Andando por aquelas ruas desertas, já era de noite, ele percebeu que não estava sozinho. Por um instante ficou imóvel para escutar aquilo que julgava ser passos, enquanto os seus olhos vasculhavam à sua volta em busca de vultos ou movimentos estranhos. Como não viu nada, pensou ser uma coisa da sua imaginação.

 

Começou outra vez a caminhar; dessa vez mais lentamente e, uma vez mais julgou ouvir passos que não eram os seus. Encostou-se à parede e ficou sem respirar por um momento; isso permitiria-lhe aguçar os sentidos e ouvir com mais clareza. E nada, apenas o incrível silêncio da noite. A sua mente já começava a trabalhar com muitas possibilidades. Era como naquelas horas em que se escuta um barulho qualquer e sons estranhos parecem intrometer-se no meio.

 

Lembrou-se de uma explicação que ouvira sobre isso; disseram-lhe uma vez: “As palavras quando são pronunciadas, acabam por criar entre elas, quer dizer, no intervalo entre uma e outra, sons inexistentes...”. Podia até ser isso.

 

Depois ele pensou: “a quem interessaria seguir-me a meio da noite?” Estava claro que aquilo era uma coisa da sua mente, apenas mais uma das suas brincadeiras sem explicação. Lembrou-se então do dia que acordara a meio da noite com um grande barulho, onde apanhara um susto tão grande, que em vez de correr da cama em direcção à porta, correu em direcção à parede. Simplesmente ficara desorientado, sem saber se era de manhã ou de noite, ou onde estava, ou se tinha um nome.

 

Depois de chocar contra a parede, ele chegou a duvidar se realmente existira o tal barulho, ou não fora uma invenção de sua mente. Mas agora era diferente, pois estava bem acordado. Mas a sua imaginação já tinha iniciado um processo irreversível, de criar as mais estranhas possibilidades para explicar aqueles supostos passos que escutara. Este era um grande problema, uma vez que ela criava sempre coisas que não existiam, e até que tudo ficasse esclarecido, nem ela desistiria da busca, nem ele deixaria de ter medo.

 

Ele pensou sobre isso; sobre o porquê da mente inventar as coisas e estas parecerem ser de verdade. “Deviam explicar isto na escola”, comentou tentando distrair-se. Mas, na escola só explicavam coisas sem importância, que de nada serviriam para acalmá-lo naquele momento de medo. De que lhe servia, por exemplo, saber naquele instante, qual a distância em quilómetros entre a terra e a lua; ou quantos planetas existem no espaço?

 

Olhou para cima e viu dezenas de pontinhos brilhantes, que chamavam estrelas, e estes pontinhos mais pareciam rir da sua incapacidade em vencer o seu próprio medo. Ali, naquele espaço inalcançável, tudo parecia tranquilo, e a existência dos seus problemas, da sua angústia em não saber resolver aquela questão, nada para eles significava. Escutou ao longe os latidos dos cães à noite, que pareciam combinar entre si quando deviam iniciar e parar a algazarra, na maioria das vezes sem motivo nenhum. Bastava um começar, e logo os outros o imitavam, como se aquilo fosse uma conversação de longa distância entre eles. Se calhar até era isso mesmo.

 

Como estava numa rua principal, andou mais um pouco e entrou num beco. Ali permaneceu quieto e oculto na escuridão do beco, enquanto aguardava a passagem do seu suposto seguidor. Depois pensou se não seria pior, pois ao passar diante do beco, ele com certeza que o veria logo. Escondeu-se atrás de uns sacos de lixo que estavam ali próximos e lá permaneceu, enquanto sua mente fazia de tudo para o atormentar com suas ideias mais esquisitas.

 

Do ponto onde se encontrava, podia ver um pequeno trecho iluminado da rua principal, como se fosse uma janela. Então escutou os passos, e como estava imóvel, respirando a longos intervalos para não atrapalhar a sua audição, aquele barulho de modo algum podia ter como origem ele próprio. Se ficou aliviado em saber finalmente que os passos não eram coisa da sua imaginação, logo os seus pensamentos, como se fossem um conselheiro cruel que o detestava, iniciaram um novo processo para tentar explicar o que viria a seguir. “Se pelo menos eles se aquietassem, ajudaria tanto...”, referiu-se amargurado em relação aos seus pensamentos.

 

E à medida que os passos se aproximavam da entrada do beco, mais a sua mente brincava a torturá-lo com as mais estranhas e horripilantes fantasias. Observando melhor, percebeu que a meio da enxurrada de pensamentos que brigavam entre si por um pouco de atenção, nada havia para motivá-lo, para lhe dar ânimo, mas apenas para dar-lhe desânimo, aflição e cada vez mais medo.

 

Viu uma sombra se aproximando lentamente da entrada do beco e o seu coração disparou, enquanto já imaginava em que direcção deveria correr para escapar do perigo. Mas, de repente, a poucos passos da entrada do beco, a sombra projectada no chão, parou de se mover e ali permaneceu como que de vigília. De olhos fixos, ele observava a sombra para ver se se movia, e foi nesse momento que aconteceu um verdadeiro milagre.

 

Ele descobriu que aquele beco era onde era a sua casa; lembrou-se ao sentir o peculiar cheiro de lixo sobre o qual a sua mãe dizia sempre: “Não é toda a gente que tem o privilégio que nós temos! Enquanto os outros precisam andar muito para encontrar um caixote do lixo, nós já moramos em frente a um enorme. Só imundície fina...”. E animado ele viu o buraco onde morava, e entrou lá sossegado. Afinal de contas, aquilo podia ser muito bem um gato, que é o pior pesadelo de um rato.

 

Alberto S. Grimm

 

publicado por Lagash às 16:07
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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Aviões

 

 

Gosto de observar, plantado como uma árvore,

a linha que os aviões traçam no céu,

quando sobem rompendo os ares.

É verdade que hoje,

quando bastariam apenas alguns segundos

para que a humanidade desaparecesse num ápice,

debaixo (dizem)

de uma terrível nuvem alaranjada,

voar já não tem mistério.

Porém,

a altiva e bela diagonal

desenhada no azul transparente pelos aviões que partem

enche-me as medidas…

 

João Melo

 

publicado por Lagash às 16:13
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Parabéns à melhor mãe... a minha (75º aniversário)

 

 

 

(Ermelinda Miranda - Verão de 2005) 

 

O pensamento

 

Nada é mais misterioso

Do que o pensamento

Nada é mais livre

Nada é mais sonante

É tão musical

Tão cortante

Tão amante

Tão veloz

Tão inconstante

Mistério tão

Sem valor

Mas assim

Nasce o amor

 

Ermelinda Miranda

 

Para a minha mãe. Que faz hoje 75 anos. Que belo número. Nasceste a 2 de Setembro de 1934.

 

E que belo poema este que escreveste. O amor que tenho por ti, nasceu assim há 36 anos, tão misterioso como a vida que nasceu nesse momento. Para ti tenho mais que um pensamento. Tenho o respeito da vida que me deste e dás. A devoção à família que só compreenderei quando de mim nascer um mistério. Como o pelicano que dá a sua própria carne às suas crias em momentos de escassez, assim tu te anulas em função dos que amas. Sinto-o e isso por vezes, revolta-me por não conseguir ser assim. Quero sê-lo, porque assim é que é belo. Assim se vive no céu. Dando, uns aos outros. Tu dás, sem querer retorno. Nada pedes, nada queres para ti. O sublime altruísmo. Somos a tua extensão. Sou os teus braços. Eu estou contigo, no teu coração. E tu estás comigo no meu…

 

És para mim o exemplo do que deve ser a vida.

 

Do pensamento nasce o amor, é verdade mamã! Penso em ti neste momento. Neste dia. Parabéns!

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:13
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