Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O beijo de Judas

 

 

Aquele que escreve será traído

um dia algum leitor apontará

a palavra interdita

e o sentido escondido no sentido.

O beijo de Judas está dentro da própria escrita

e aquele que escreve está

perdido. De nada serve

dizer este é o meu vinho este é o meu pão.

O beijo de Judas vai ser dado. Quem escreve

tem uma lança apontada ao coração.

 

Não se perdoa a dádiva de si

a canção que se canta ou a breve tão breve

alegria de partilhar o corpo e a palavra.

Quem reparou em Getsemani

naquele que não se ria nem se dava?

Já outra vez se levantou e se deteve

alguém vai ser traído agora aqui

seu olhar te designa: Tu és aquele que escreve

e a tua própria mão aponta para ti.

 

Manuel Alegre

 

publicado por Lagash às 16:20
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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Onda a onda

 

 

Onda a onda o desejo no

teu rosto de mágoas e de torres

levemente descaídas para

onde não sei se nasces ou se morres

quando os meus dedos cítara a cítara

tocam a música do teu corpo nu

lá onde os teus mistérios serão meus

e chegarei às margens onde tu

talvez então me digas quem é Deus.

 

Manuel Alegre

 

publicado por Lagash às 16:01
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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Mais que o teu corpo

 

(Anne Hathaway) 

 

Mais que o teu corpo quero o teu pudor

quero o destino e a alma e quero a estrela

e quero o teu prazer e a tua dor

o crepúsculo e a aurora e a caravela

para o amor que fica além do amor.

 

A alegria e o desastre e o não sei quê

de que fala Camões e é como água

que dos dedos se escapa e só se vê

quando o prazer se torna quase mágoa.

 

Estar em ti como quem de si se parte

e assim se entrega e dando não se dá

quero perder-me em ti e quero achar-te

como num corpo o corpo que não há.

 

Manuel Alegre

 

publicado por Lagash às 16:23
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Um nome escrito no tempo

 

(foto de Janosch Simon) 

 

 

Teu nome antes mesmo do caderno

teu nome na negra lousa eu o escrevi

eu o escrevi e apaguei e se perdeu e renasceu

teu nome efémero teu nome eterno

teu nome onde eras tu mesmo sem ti

teu nome eu o escrevi eu o perdi

teu nome que saiu das folhas para o mundo

apesar da tinta que lentamente esmaeceu

teu nome eu o escrevi e se inscreveu

de tal modo dentro de mim tão fundo

que já não sei se és tu ou eu.

 

Teu nome em toda a parte eu o escrevi

nas árvores nas águas nas areias

no caderno e na lousa o andei compondo

no sangue que circula em minhas veias

teu nome eu o perdi eu o perdi

e quando o chamo eu mesmo é que respondo.

 

Manuel alegre

 

publicado por Lagash às 16:05
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

A perigosa mão de Deus

 

 

Deus é maneta

diz Saramago

só tem a mão direita

à direita da qual todos se sentam

 

Eu canto a outra mão de Deus

a que traz o Diabo pela trela

a que por vezes puxa para o outro lado

e escreve sempre por linhas tortas

a mão esquerda de Deus

a mão de sombra a mão do medo

a mão do nada

a mais perigosa mão de Deus

aquela que de repente solta o espírito

o enxofre a guerra o vento mau.

É a mão esquerda de Deus que aperta o coração

acelera o pulso

desarticula o ritmo.

Os poetas estão sentados à esquerda da mão esquerda

de Deus

até mesmo Antero.

É com ela que Deus abana o Mundo

com sua chuva e com seu fogo

sua onda gigante e seu terrível

terramoto.

Não é verdade que Deus seja maneta

Deus é canhoto.

 

Manuel Alegre

 

publicado por Lagash às 16:08
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Maria Madalena

 

("Maria Magdalena" um quadro de Daumier Honoré) 

 

Em sua boca florescem os vocábulos

o leite e o mel inundam suas coxas

ela sabe a ternura e o perdão

consola o justo e o pecador

em seu corpo o corpo se purifica

em seu amor o espírito se redime

em sua perdição está nossa única e santa

salvação.

Beijarei sua carne de inocência

quem nunca amou atire

a primeira pedra.

 

Manuel Alegre

 

publicado por Lagash às 16:08
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Fernando pessoa


Vem ver agora o meu país que já
não tem Camões nem Índias para achar
só tem Pessoa e o império que não há
sentado à mesa como em alto mar.

A viagem que faz é só por dentro
e escreviver-se a única aventura.
No pensamento é que lhe dá o vento
ele é sozinho uma literatura.

Eis a vida vidinha cega e surda
ditadura do não do só do pouco.
Ser homem ( diz Pessoa ) é ser-se louco.

Heterónimo de si na hora absurda
viajando no sentir escreve sentado.
E é Pessoa: “futuro do passado”

 

Manuel Alegre

publicado por Lagash às 05:43
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Domingo, 4 de Maio de 2008

Coimbra

 

(A torre da cabra desaparecida que tantos inpirou e 'desinspirou') 

 

A todos os estudantes de coimbra, com o desejo de sucesso nas vossas carreiras, de outro estudante mais a sul.

 

De Coimbra, fica um rio e uma saudade
Cavaleiros andantes, dulcineias
De Coimbra, fica a breve eternidade
Do Mondego, a correr em nossas veias

De Coimbra, fica o sonho, fica a graça
Antero de revolta, capa à solta
De Coimbra, fica um tempo que não passa
Neste passar de um tempo que não volta

 

Manuel Alegre - 1978

publicado por Lagash às 18:01
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Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Abril de sim, Abril de Não

 

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.
Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.
 

Manuel Alegre

publicado por Lagash às 01:37
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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