Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Música – I

 

 

É de noite que te invoco

sobre todas as coisas

e, encantada, chegas

nas ásperas asas

de anjos furiosos

ou nas serenas notas

de doces divindades

tu, música intensa,

vasta como o seio materno,

que te infiltras,

como o leite ou vinho,

pelos ossos,

e vais

lentamente

tomando conta dos corpos,

como um veneno espesso

e amoroso,

às vezes,

uma letargia

que começa pelas pernas

e sobe pela linha da coluna

até à nuca,

outra,

uma explosão

que sacode todo o corpo,

pés, mãos, olhos,

ancas, nádegas, cabelos,

como

uma tempestade

ou

como

algum sinal antigo

despertando a quianda

que todos ocultamos

do outro lado

do espírito,

é sobretudo

de noite, oh

música,

que se misturam

todas as referências

que carrego

através do tempo

desde há milénios,

tambores e violinos,

pianos e quissanges,

valsas e rebitas

solenes.

 

O mundo retratado numa tela é uma espécie de horror inatingível. Se algum poeta sobre ele exercita o poder inóspito das palavras, é como se cometesse um exorcismo. Mas apenas a música tem esse terrífico e maravilhoso dom de organizar o caos, penetrando e dissolvendo-se no nosso metabolismo milenar, como prazer e impulso primordiais.

 

João Melo

 

publicado por Lagash às 16:19
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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Aviões

 

 

Gosto de observar, plantado como uma árvore,

a linha que os aviões traçam no céu,

quando sobem rompendo os ares.

É verdade que hoje,

quando bastariam apenas alguns segundos

para que a humanidade desaparecesse num ápice,

debaixo (dizem)

de uma terrível nuvem alaranjada,

voar já não tem mistério.

Porém,

a altiva e bela diagonal

desenhada no azul transparente pelos aviões que partem

enche-me as medidas…

 

João Melo

 

publicado por Lagash às 16:13
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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Os livros

 

 

Não conhecemos estes lugares

ou compulsivamente

os revemos. Paisagens

inusitadas, absurdas,

mesmo se alguma vez as frequentámos

com nossos olhos e bagagens.

São estranhos estes homens

que nos fazem rir e chorar,

sentir raiva, ser

solidários. São-nos íntimos,

porém. Estes

sonhos, a quem

pertencem? Sentimentos obscuros,

que angústias (des)

velam? Trágicas

desilusões,

que mundos encerram?

 

Os livros, quietos

e buliçosos: o nosso

alter ego.

 

João Melo

 

publicado por Lagash às 16:04
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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