Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Não cortem o cordão

 

 

Não cortem o cordão que liga o corpo à criança do sonho,

o cordão astral à criança aldebarã, não cortem

o sangue, o ouro. A raiz da floração

coalhada com o laço

no centro das madeiras

negras. A criança do retrato

revelada lenta às luzes de quando

se dorme. Como já pensa, como tem unhas de mármore.

Não talhem a placenta por onde o fôlego

do mundo lhe ascende à cabeça.

Linhas cristalográficas atravessando os cornos.

 

A veia que a liga à morte.

Não lhe arranquem o bloco de água abraçada aonde chega

braço a braço. Sufoca.

Mas não desatem o abraço louco.

 

A terra move-a quando se move.

 

Não limpem o sal na boca. Esse objecto asteróide,

não o removam.

A árvore de alabastro que as ribeiras

frisam, deixem-na rasgar-se:

- Das entranhas, entre duas crianças, a que era viva

e a criança do sopro, suba

tanta opulência. O trabalho confuso:

que seja brilhante a púrpura.

Fieiras de enxofre, ramais de quartzo, flúor agreste nas bolsas

pulmonares. Deixem que se espalhem as redes

da respiração desde o caos materno ao sonho da criança

exacerbada,

única.

 

Herberto Hélder

 

publicado por Lagash às 16:30
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Domingo, 23 de Novembro de 2008

Nascimento de Herberto Hélder

 

(Herberto Hélder) 

 

Herberto Hélder de Oliveira, nasceu no Funchal a 23 de Novembro de 1930.

 

Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Viajou por diversos países da Europa realizando trabalhos, sem qualquer relação com a literatura.

 

É considerado um dos mais originais poetas vivos de língua portuguesa. É uma figura misantropa, e em torno de si paira uma atmosfera algo misteriosa uma vez que recusa prémios e se nega a dar entrevistas. Em 1994 foi o vencedor do Prémio Pessoa que recusou. É pai de Daniel Oliveira.

 

A sua escrita começou por se situar no âmbito de um surrealismo tardio. Escreveu "Os Passos em Volta", um livro que através de vários contos, sugere as viagens deambulatórias de uma personagem por entre cidades e quotidianos, colocando ao mesmo tempo incertezas acerca da identidade própria de cada ser humano (ficção); "Photomaton e Vox", é uma colectânea de ensaios e textos e também de vários poemas. "Poesia Toda" é o título de uma antologia pessoal dos seus livros de poesia que tem sido depurada ao longo dos anos. Na edição de 2004 foram retiradas da recolha suas traduções.

 

A crítica literária aproxima sua linguagem poética do universo da Alquimia, da mística, da Mitologia edipiana e da Imago da Mãe.

 

Fonte: Wikipédia com alguma edição da minha autoria.

 

publicado por Lagash às 10:09
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Se houvesse degraus na terra...

 

(Herberto Hélder) 

 

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,

eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.

No céu podia tecer uma nuvem toda negra.

E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,

e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

 

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,

levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.

Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,

e a fímbria do mar, e o meio do mar,

e vermelhas se volveram as asas da águia

que desceu para beber,

e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

 

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.

Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.

Correram os rapazes à procura da espada,

e as raparigas correram à procura da mantilha,

e correram, correram as crianças à procura da maçã.

 

Herberto Hélder

 

publicado por Lagash às 16:11
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Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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