Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Languidez

 

("Jove Decadente" por Ramon Casas, 1910) 

 

 

Tardes da minha terra, doce encanto,

Tardes duma pureza de açucenas,

Tardes de sonho, as tardes de novenas,

Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,

 

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!...

Horas benditas, leves como penas,

Horas de fumo e cinza, horas serenas,

Minhas horas de dor em que eu sou santo!

 

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,

Que poisam sobre duas violetas,

Asas leves cansadas de voar...

 

E a minha boca tem uns beijos mudos...

E as minhas mãos, uns pálidos veludos,

Traçam gestos de sonho pelo ar...

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 16:27
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

 

 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços...

 

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca... o eco dos teus passos...

O teu riso de fonte... os teus abraços...

Os teus beijos... a tua mão na minha...

 

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

 

E é como um cravo ao sol a minha boca...

Quando os olhos se me cerram de desejo...

E os meus braços se estendem para ti...

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 16:02
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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Escreve-me

 

 

Escreve-me! Ainda que seja só

Uma palavra, uma palavra apenas,

Suave como o teu nome e casta

Como um perfume casto d'açucenas!

 

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo

Que te não vejo, amor! Meu coração

Morreu já, e no mundo aos pobres mortos

Ninguém nega uma frase d'oração!

 

"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,

Folhas leves e tenras de boninas,

Um poema d'amor e felicidade!

 

Não queres mandar-me esta palavra apenas?

Olha, manda então... brandas... serenas...

Cinco pétalas roxas de saudade...

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 16:17
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Sábado, 15 de Agosto de 2009

Desejo

 

 

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.

Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,

Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver

Amortalhado sempre à luz duma saudade!

 

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco

Se ungir da palidez sinistra do não ser,

E quero ainda, amor, no meu supremo arranco

Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

 

Que seja a tua mão tão branda como a neve

Que feche o meu olhar numa carícia leve

Em doce perpassar de pétala de lis...

 

Que seja a tua boca rubra como o sangue

Que feche a minha boca, a minha boca exangue!...

.......................................................................

Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!...

 

Florbela Espanca

in “O Livro D’ele”

 

publicado por Lagash às 16:26
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Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

A noite desce…

 

 

Como pálpebras roxas que tombassem

Sobre uns olhos cansados, carinhosas,

A noite desce... Ah! doces mãos piedosas

Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

 

Assim mãos de bondade me beijassem!

Assim me adormecessem! Caridosas

Em braçados de lírios, de mimosas,

No crepúsculo que desce me enterrassem!

 

A noite em sombra e fumo se desfaz...

Perfume de baunilha ou de lilás,

A noite põe embriagada, louca!

 

E a noite vai descendo, sempre calma...

Meu doce Amor tu beijas a minh'alma

Beijando nesta hora a minha boca!

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 16:13
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Eu

 

 

Até agora eu não me conhecia,

Julgava que era Eu e eu não era

Aquela que em meus versos descrevera

Tão clara como a fonte e como o dia.

 

Mas que eu não era Eu não o sabia

mesmo que o soubesse, o não dissera...

Olhos fitos em rutila quimera

Andava atrás de mim... e não me via!

 

Andava a procurar-me - pobre louca! -

E achei o meu olhar no teu olhar,

E a minha boca sobre a tua boca!

 

E esta ânsia de viver, que nada acalma,

E a chama da tua alma a esbrasear

As apagadas cinzas da minha alma!

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 16:03
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Sábado, 21 de Março de 2009

Ser Poeta

 

 

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda gente!

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 10:06
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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

O nosso mundo

 

(escultura "o beijo" de Rodin - versão em marmore exposta no Musée Rodin em Paris) 

 

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos

Como um divino vinho de Falerno

Poisando em ti o meu olhar eterno

Como poisam as folhas sobre os lagos...

 

Os meus sonhos agora são mais vagos

O teu olhar em mim, hoje é mais terno...

E a Vida já não é o rubro inferno

Todo fantasmas tristes e presságios!

 

A Vida, meu amor, quero vivê-la!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,

Bocas unidas hemos de bebê-la!

 

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...

O mundo, Amor!...As nossas bocas juntas!...

 

Florbela Espanca

  

(original da autora arquivado na Biblioteca Nacional de Portugal no Campo Grande em Lisboa - Espólio de Florbela Espanca)

publicado por Lagash às 16:06
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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!


 

 


Florbela Espanca

publicado por Lagash às 01:36
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Exaltação

Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer
Ao Céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!...
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!...
A glória!... A fama!... O orgulho de criar!...

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos extáticos, pagãos!...

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas:
- Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!...
 


Florbela Espanca

publicado por Lagash às 01:10
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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