Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

Acordar

 

 

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,

Acordar da Rua do Ouro,

Acordar do Rocio, às portas dos cafés,

Acordar

E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,

Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

 

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,

Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.

À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se

Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,

E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

 

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,

Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,

Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,

São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,

Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,

Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,

Seja

 

A mulher que chora baixinho

Entre o ruído da multidão em vivas...

O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,

Cheio de individualidade para quem repara...

O arcanjo isolado, escultura numa catedral,

Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,

Tudo isto tende para o mesmo centro,

Busca encontrar-se e fundir-se

Na minha alma.

 

Eu adoro todas as coisas

E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.

Tenho pela vida um interesse ávido

Que busca compreendê-la sentindo-a muito.

Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,

Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,

Para aumentar com isso a minha personalidade.

 

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio

E a minha ambição era trazer o universo ao colo

Como uma criança a quem a ama beija.

Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,

Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo

Do que as que vi ou verei.

Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.

A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.

Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

 

Dá-me lírios, lírios

E rosas também.

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também,

Crisântemos, dálias,

Violetas, e os girassóis

Acima de todas as flores...

 

Deita-me as mancheias,

Por cima da alma,

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também...

 

Meu coração chora

Na sombra dos parques,

Não tem quem o console

Verdadeiramente,

Exceto a própria sombra dos parques

Entrando-me na alma,

Através do pranto.

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também...

 

Minha dor é velha

Como um frasco de essência cheio de pó.

Minha dor é inútil

Como uma gaiola numa terra onde não há aves,

E minha dor é silenciosa e triste

Como a parte da praia onde o mar não chega.

Chego às janelas

Dos palácios arruinados

E cismo de dentro para fora

Para me consolar do presente.

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também...

 

Mas por mais rosas e lírios que me dês,

Eu nunca acharei que a vida é bastante.

Faltar-me-á sempre qualquer coisa,

Sobrar-me-á sempre de que desejar,

Como um palco deserto.

 

Por isso, não te importes com o que eu penso,

E muito embora o que eu te peça

Te pareça que não quer dizer nada,

Minha pobre criança tísica,

Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também...

 

Álvaro de Campos

 

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Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Pedras no caminho

 

 

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.

 

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

 

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um "não".

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

 

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

 

Fernando Pessoa

 

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Domingo, 27 de Dezembro de 2009

Natal

 

 

Natal. Na província neva.

Nos lares aconchegados

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

 

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só, e sonho saudade.

 

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei.

 

Fernando Pessoa

 

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Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Chove e é dia de Natal

 

 

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

 

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

 

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

 

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

 

Fernando Pessoa

 

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Sábado, 19 de Dezembro de 2009

Barrow-on-furness V

 

 

 

Há quanto tempo, Portugal, há quanto 

Vivemos separados! Ah, mas a alma, 

Esta alma incerta, nunca forte ou calma, 

Não se distrai de ti, nem bem nem tanto. 

 

Sonho, histérico oculto, um vão recanto... 

O rio Furness, que é o que aqui banha, 

Só ironicamente me acompanha, 

Que estou parado e ele correndo tanto... 

 

Tanto? Sim, tanto relativamente... 

Arre, acabemos com as distinções,  

As subtilezas, o interstício, o entre, 

A metafísica das sensações — 

 

Acabemos com isto e tudo mais... 

Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!

 

Álvaro de Campos

 

publicado por Lagash às 16:07
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Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Barrow-on-furness IV

 

 

IV 

 

Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo, 

Saiu-me certo, fui elogiado... 

Meu coração é um enorme estrado 

Onde se expõe um pequeno animálculo 

 

A microscópio de desilusões 

Findei, prolixo nas minúcias fúteis... 

Minhas conclusões práticas, inúteis... 

Minhas conclusões teóricas, confusões... 

 

Que teorias há para quem sente 

O cérebro quebrar-se, como um dente 

Dum pente de mendigo que emigrou?  

 

Fecho o caderno dos apontamentos 

E faço riscos moles e cinzentos 

Nas costas do envelope do que sou... 

 

Álvaro de Campos

 

publicado por Lagash às 16:26
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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Barrow-on-furness III

 

 

III 

 

 

Corre, raio de rio, e leva ao mar

A minha indiferença subjectiva!

Qual "leva ao mar"! Tua presença esquiva

Que tem comigo e com o meu pensar?

 

Lesma de sorte! Vivo a cavalgar

A sombra de um jumento. A vida viva

Vive a dar nomes ao que não se activa,

Morre a pôr etiquetas ao grande ar...

 

Escancarado Furness, mais três dias

Te, aturarei, pobre engenheiro preso

A sucessibilíssimas vistorias...

 

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo

(E tu irás do mesmo modo que ias),

Qualquer, na gare, de cigarro aceso

 

Álvaro de Campos

 

publicado por Lagash às 16:16
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Barrow-on-Furness II

 

 

II 

 

Deuses, forças, almas de ciência ou fé,

Eh! Tanta explicação que nada explica!

Estou sentado no cais, numa barrica,

E não compreendo mais do que de pé.

 

Por que o havia de compreender?

Pois sim, mas também por que o não havia?

Água do rio, correndo suja e fria,

Eu passo como tu, sem mais valer...

 

Ó universo, novelo emaranhado,

Que paciência de dedos de quem pensa

Em outras cousa te põe separado?

 

Deixa de ser novelo o que nos fica...

A que brincar? Ao amor?, à indif'rença?

Por mim, só me levanto da barrica.

 

Álvaro de Campos

 

publicado por Lagash às 16:05
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Barrow-on-Furness I

 

 

I

 

 

Sou vil, sou reles, como toda a gente,

Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.

Quem diz que os tem é como eu, mas mente.

Quem diz que busca é porque não os tem.

 

É com a imaginação que eu amo o bem.

Meu baixo ser porém não mo consente.

Passo, fantasma do meu ser presente,

Ébrio, por intervalos, de um Além.

 

Como todos não creio no que creio.

Talvez possa morrer por esse ideal.

Mas, enquanto não morro, falo e leio.

 

Justificar-me? Sou quem todos são...

Modificar-me? Para meu igual? ...

- Acaba lá com isso, ó coração!

 

Álvaro de Campos

 

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Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Para ser grande, sê inteiro

 

 

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

 

Ricardo Reis

 

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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Emoção e Poesia

 

(Fernando Pessoa por Mário L. Soares) 

 

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem quão mais fácil é escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual está profundamente apaixonado. A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstracta.

 

Uma grande emoção é por demais egoísta; absorve em si própria todo o sangue do espírito, e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever. Três espécies de emoções produzem grande poesia - emoções fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto. Não a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte.

 

Fernando Pessoa

 

Deixo-vos esta reflexão de Fernando Pessoa no 74º aniversário da sua morte. Este que é o maior poeta de todos os tempos e de todas as nações. É também um pensador, um filósofo, um amante da arte e do estudo, do saber e do Homem.

 

Uma personagem única, uma imagem única, uma mente e intelecto únicos, um Homem único.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:16
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Não estou pensando em nada

 

 

Não estou pensando em nada 

E essa coisa central, que é coisa nenhuma,  

É-me agradável como o ar da noite, 

Fresco em contraste com o verão quente do dia, 

Não estou pensando em nada, e que bom! 

 

Pensar em nada 

É ter a alma própria e inteira. 

Pensar em nada 

É viver intimamente 

O fluxo e o refluxo da vida... 

  

Não estou pensando em nada. 

Só, como se me tivesse encostado mal. 

Uma dor nas costas, ou num lado das costas,  

Há um amargo de boca na minha alma:  

É que, no fim de contas, 

Não estou pensando em nada, 

Mas realmente em nada, 

Em nada...

 

Álvaro de Campos

1935

 

publicado por Lagash às 16:04
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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Prisão servil

 

 

Vil prisão servil

esta do meu peito

onde bate o amor

a portas fechadas.

Abrem-se alas

de amores fugazes.

Vontade p’lo dia e eu a noite,

querem o pão e eu o vinho.

Assim, sem querer, sem explicação,

sem amor…

 

Mário L. Soares

(mote de Fernando Pessoa)

 

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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

 

(Anne Hathaway) 

 

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,

Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,

Pergunto a mim próprio devagar

Por que sequer atribuo eu

Beleza às cousas.

 

Uma flor acaso tem beleza?

Tem beleza acaso um fruto?

Não: têm cor e forma

E existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe

Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.

Não significa nada.

Então por que digo eu das cousas: são belas?

 

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,

Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens

Perante as cousas,

Perante as cousas que simplesmente existem.

 

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

 

Alberto Caeiro

in Guardador de Rebanhos

 

publicado por Lagash às 16:22
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Domingo, 2 de Agosto de 2009

O Encoberto

 

 

Que símbolo fecundo

Vem na aurora ansiosa?

Na Cruz Morta do Mundo

A Vida, que é a Rosa.

 

Que símbolo divino

Traz o dia já visto?

Na Cruz, que é o Destino,

A Rosa que é o Cristo.

 

Que símbolo final

Mostra o sol já desperto?

Na Cruz morta e fatal

A Rosa do Encoberto.

 

Fernando Pessoa

in “A Mensagem”

 

publicado por Lagash às 16:27
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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