Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

O sexo é sagrado...

 

 

O sexo é sagrado,

como salgadas são as gotas de suor

que brotam dos meus poros

e encharcam nossas peles.

A noite é meu templo

onde me torno uma deusa enlouquecida

sentindo teus pelos sobre a minha pele.

Neste instante já não sou nada,

somente corpo,

boca,

pele,

pêlos,

línguas,

bocas.

E a vida brota da semente,

dos poucos segundos de êxtase.

Tuas mãos como um brinquedo

passeiam pelo meu corpo.

Não revelam segredos

desvendam apenas o pudor do mundo,

descobrem a febre dos animais.

Então nos tornamos um

ao mesmo tempo em que

a escuridão explode em festa.

A noite amanhece sem versos,

com a música do seu hálito ofegante.

O sol brota de dentro de mim.

Breves segundos.

Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.

Eu fui feliz.

 

Cláudia Marczak

 

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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

 

 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços...

 

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca... o eco dos teus passos...

O teu riso de fonte... os teus abraços...

Os teus beijos... a tua mão na minha...

 

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

 

E é como um cravo ao sol a minha boca...

Quando os olhos se me cerram de desejo...

E os meus braços se estendem para ti...

 

Florbela Espanca

 

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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Beijo

 

 

Um beijo em lábios é que se demora

e tremem no de abrir-se a dentes línguas

tão penetrantes quanto línguas podem.

Mas beijo é mais. É boca aberta hiante

para de encher-se ao que se mova nela.

E dentes se apertando delicados.

É língua que na boca se agitando

irá de um corpo inteiro descobrir o gosto

e sobretudo o que se oculta em sombras

e nos recantos em cabelos vive.

É beijo tudo o que de lábios seja

quanto de lábios se deseja.

 

Jorge de Sena

 

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Domingo, 5 de Julho de 2009

Receita

 

(Roberta Murgo) 

 

Para me conquistar

É preciso exalar um cheiro

íntimo, conhecido, costumeiro

Desses que sinto e enfraqueço...

Que faz tremer a voz, as pernas

Dá nós nas tripas e nas ideias....

 

Tens ideia?

Perguntas-me: A que vens?

Venho com todas

as boas e más intenções

Tentações, recriações,

Bolinações, entremeios...

 

O que eu faria?

Convidar-te-ia para ida ao cinema

Ver película interessante,

Instigante que acalma os nervos...

 

Sei que preferirias um jantar

À luz de velas, com preparo

cuidadoso

Vinho tinto à temperatura exacta

João Gilberto a cantar

Minha voz a sussurrar

Melindres, indecências

Em tua consciência...

 

Mas, do teu mundo previsível fujo

Eu opto pelo devaneio de teus dias

Por tua agonia diária, insaciável

Buscando sinais de minha presença

 

Eu opto por te tirar do comezinho

Da disciplina cotidiana,

De tua razão insana...

 

Sou tua surpresa constante

Usando saias e blusas coladas

No corpo delgado que se alinha

Em minhas curvas as quais te

curvas....

 

Sei que gostas dos ruídos do quarto

Dos gemidos que escutas

Dos grunhidos que provocas

Sei que gostas de rolar teu corpo

Que recebe de bom grado

o meu sobre o seu,

que quando se tocam

trocam segredos de alcova...

 

Sei que guardas na memória

Toda minha textura

E vê candura, onde há só luxúria

de fêmea louca que a ti provoca

mal estar, gosto na boca...

 

E que a cada movimento

Um contentamento roubado

Tu me olhas calado,

Extasiado que estás com a exploração

Mão safada que te escapas

Que confusão!

 

Sei que preferirias roubar-me toda

E não mais voltar, beijar-me a boca

e não mais calar todo o desejo retido,

todo o prazer contido em membro rijo

a explodir caudalosamente,

silenciosamente....

Mas hoje não! Hoje te rapto ao

cinema

Numa secção plena de erotismo

Do armário sai lingerie branca

Com rendas que rendem cenas

De dentes, mãos, dedos, segredos...

 

Tu não te lembrarás de close algum,

Talvez sobre na memória alguma

melodia,

da boa fotografia tu não terás

opinião,

perderás a razão, a postura

E não saberás nada sobre o roteiro,

Director, actor, clímax da acção...

 

Nada te restará para recordação

Por que rescrevi o script

Revolvi todas as formas de prazeres

Vou-te fazer um strip

Para tu nunca mais esqueceres...

 

Gueixa

 

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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Invenção

 

("Maja desnuda" de Goya) 

 

 

Se é por mim que traço

o teu retrato,

a sobrancelha, a boca

o pensamento

 

É por ti, também

que já o guardo

e o demoro naquilo que eu

invento

 

A mão descida ali

o ombro inclinado

 

Os dedos descuidados

o gesto de que me lembro

 

Se é por mim que faço

o teu retrato

dizendo de ti mais do que

entendo

 

É por ti que o testemunho

e faço:

o nariz, a face dissimulando os dentes

 

Deixo para o fim os lábios

os olhos deste mar

com a cor do luar

a meio de Agosto

 

Se desvendo de ti o sol-posto

é porque vejo o coração

amar

e nada mais me dá tamanho gosto

 

Maria Teresa Horta

 

publicado por Lagash às 16:15
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Sábado, 30 de Maio de 2009

Cheiro

 

 

O cheiro

O sabor

da tua boca

 

A baunilha

a camélia desfolhada

 

A saliva a saber

a leite morno

 

Escutando o rumor

das tuas asas

 

Maria Teresa Horta

 

publicado por Lagash às 16:06
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Maria Madalena

 

("Maria Magdalena" um quadro de Daumier Honoré) 

 

Em sua boca florescem os vocábulos

o leite e o mel inundam suas coxas

ela sabe a ternura e o perdão

consola o justo e o pecador

em seu corpo o corpo se purifica

em seu amor o espírito se redime

em sua perdição está nossa única e santa

salvação.

Beijarei sua carne de inocência

quem nunca amou atire

a primeira pedra.

 

Manuel Alegre

 

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Terça-feira, 31 de Março de 2009

Fruto

 

(Foto de Katia Chausheva) 

 

Serves-me o fruto,

na mão o tenho de bandeja.

Como-o, desfruto.

Mancha-me o peito,

a vida, o leito.

É vermelho como uma cereja,

rubro como o vinho.

Alvo e cheio como o ovo,

e escorre pela boca

e faz-me sentir mais novo.

Bebo a gosto a tua seiva,

sou conduzido por uma louca,

que me engana o caminho.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:23
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Domingo, 29 de Março de 2009

Bocas Roxas de Vinho

 

 

Bocas roxas de vinho,

Testas brancas sob rosas,

Nus, brancos antebraços

Deixados sobre a mesa;

 

Tal seja, Lídia, o quadro

Em que fiquemos, mudos,

Eternamente inscritos

Na consciência dos deuses.

 

Antes isto que a vida

Como os homens a vivem

Cheia da negra poeira

Que erguem das estradas.

 

Só os deuses socorrem

Com seu exemplo aqueles

Que nada mais pretendem

Que ir no rio das coisas.

 

Ricardo Reis

 

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Sábado, 7 de Março de 2009

Há palavras que nos beijam

 

 

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto,

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas, inesperadas

Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído,

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.  

 

Alexandre O’Neill

 

 

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Nas ervas

 

(Debora Salvalaggio)

 

Escalar-te lábio a lábio,

percorrer-te: eis a cintura

o lume breve entre as nádegas

e o ventre, o peito, o dorso

descer aos flancos, enterrar

 

os olhos na pedra fresca

dos teus olhos,

entregar-me poro a poro

ao furor da tua boca,

esquecer a mão errante

na festa ou na fresta

 

aberta à doce penetração

das águas duras,

respirar como quem tropeça

no escuro, gritar

às portas da alegria,

da solidão.

 

porque é terrivel

subir assim às hastes da loucura,

do fogo descer à neve.

 

abandonar-me agora

nas ervas ao orvalho -

a glande leve.

 

Eugénio de Andrade

publicado por Lagash às 16:17
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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Os teus pés

 

 

Quando não posso contemplar teu rosto,

contemplo os teus pés.

 

Teus pés de osso arqueado,

teus pequenos pés duros.

 

Eu sei que te sustentam

e que teu doce peso

sobre eles se ergue.

 

Tua cintura e teus seios,

a duplicada purpura

dos teus mamilos,

a caixa dos teus olhos

que há pouco levantaram voo,

a larga boca de fruta,

tua rubra cabeleira,

pequena torre minha.

 

Mas se amo os teus pés

é só porque andaram

sobre a terra e sobre

o vento e sobre a água,

até me encontrarem.

 

Pablo Neruda

 

publicado por Lagash às 16:02
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Traição

 

(foto retirada de http://semadocante.blogs.sapo.pt/ - desconheço o autor) 

 

Viajo até o ponto mais arrepiante da tua nuca

Percebo o endurecimento do seu corpo

Teus seios

Teus braços

Tua boca

Arrepios

Calafrios

Minha mão decorando teus poros

A ponto de contá-los

Um a um

Conheço o gosto de cada centímetro

Beijos

Cheiros

Misturas

Sinto tremores

Amores

Fisgadas

Calafrios

Minha mão decorando teus pelos

Conheço-os um a um

Cobertura delicada

Da meiga e rija vulva

Que sabe dizer o meu nome

Que me beija

Já não sei onde fica a sua boca

Língua

Mistura

Carnes em estado de fusão

Corpos em estado de tesão

Gozo

Gritos

Beijos

Mentiras

Promessas falsas

Traição

 

Silvio Helder Lencioni Senne

 

publicado por Lagash às 16:14
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Sábado, 27 de Dezembro de 2008

Entre os teus lábios

 

("Lábios" de Sara Amaral - mais fotos da autora em www.olhares.com/Domaris ) 

 

Entre os teus lábios

é que a loucura acode,

desce à garganta,

invade a água.

 

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

 

Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

 

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

 

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.

 

Eugénio de Andrade

 

publicado por Lagash às 16:25
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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Bailarina vermelha

(foto retirada da internet - desconheço o autor) 

 

Ela passa,

a papoila rubra,

esvoaçando graça,

a sorrir...

Original tentação

de estranho sabor:

a sua boca - romã luzente,

a refulgir!...

 

As mãos pálidas, esguias,

dolorosas soluçando,

vão recortando

em ritmos de beleza

gestos de ave endoidecida...

Preces, blasfémias,

cálidas estesias

passam delirando!...

 

Mordendo-lhe o seio

túrgido e perfurante,

delira a flama sangrenta

dos rubis...

E a cinta verga, flexuosa,

na luxuria dominante

dos quadris...

 

Um jeito mais quebrado no andar...

 

Um pouco mais de sombra no olhar

bistrado de lilás...

 

E ela passa

entornando dor,

a agonizar beleza!...

Um sonho de volúpia

que logo se desfaz,

em ruivas gargalhadas

dispersas... desgrenhadas!...

 

Magoam-se os meus sentidos

num cálido rubor...

 

E nos seus braços endoidecem

as anilhas d'oiro refulgindo

num feérico clamor!...

 

E ela passa...

 

Fulva, esguia, incoerente...

Flor de vicio

esvoaçando graça

na noite tempestuosa

do meu olhar!...

Como uma brasa ardente,

e infernal e dolorosa,

... a bailar...

 

a bailar!...

 

Judith Teixeira

 

publicado por Lagash às 16:11
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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