Domingo, 31 de Janeiro de 2010

A Inigualável

 

 

Ai, como eu te queria toda de violetas

E flébil de cetim...

Teus dedos longos, de marfim,

Que os sombreassem jóias pretas...

 

E tão febril e delicada

Que não pudesse dar um passo -

Sonhando estrelas, transtornada,

Com estampas de cor no regaço...

 

Queria-te nua e friorenta,

Aconchegando-te em zibelinas -

Sonolenta,

Ruiva de éteres e morfinas...

 

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -

Teus frenesis, lantejoulas;

E os ócios em que estiolas,

Luar que se desbarata...

 

……………

 

Teus beijos, queria-os de tule,

Transparecendo carmim -

Os teus espasmos, de seda...

 

— Água fria e clara numa noite azul,

Água, devia ser o teu amor por mim...

 

Mário de Sá-Carneiro

 

publicado por Lagash às 16:12
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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Mar, mar e mar

 

 

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que a minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exactamente no meu coração

O mar volta a ser pequeno e meu,

anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

Eugénio de Andrade

 

publicado por Lagash às 16:27
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Não cortem o cordão

 

 

Não cortem o cordão que liga o corpo à criança do sonho,

o cordão astral à criança aldebarã, não cortem

o sangue, o ouro. A raiz da floração

coalhada com o laço

no centro das madeiras

negras. A criança do retrato

revelada lenta às luzes de quando

se dorme. Como já pensa, como tem unhas de mármore.

Não talhem a placenta por onde o fôlego

do mundo lhe ascende à cabeça.

Linhas cristalográficas atravessando os cornos.

 

A veia que a liga à morte.

Não lhe arranquem o bloco de água abraçada aonde chega

braço a braço. Sufoca.

Mas não desatem o abraço louco.

 

A terra move-a quando se move.

 

Não limpem o sal na boca. Esse objecto asteróide,

não o removam.

A árvore de alabastro que as ribeiras

frisam, deixem-na rasgar-se:

- Das entranhas, entre duas crianças, a que era viva

e a criança do sopro, suba

tanta opulência. O trabalho confuso:

que seja brilhante a púrpura.

Fieiras de enxofre, ramais de quartzo, flúor agreste nas bolsas

pulmonares. Deixem que se espalhem as redes

da respiração desde o caos materno ao sonho da criança

exacerbada,

única.

 

Herberto Hélder

 

publicado por Lagash às 16:30
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Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

O calor, o amor e as amoras

 

 

O calor, o amor e as amoras.

O suor que nos cola as camisolas.

Em redor, o fragor de uma ribeira.

Por brincadeira,

colho-t'um beijo!

Junto aos ramos d'uma amoreira.

 

Ruborizam-se as faces

nem sei bem de que maneira!

Será do calor que se sente?

Ou pelo facto de um adolescente

ser inexperiente na matéria?

 

Por reflexo mergulhámos

os dois juntos na água fria.

Sem jeito, mal disfarçámos

a atracção que se sentia!

 

O teu corpo que se revela

na transparência da camisola

És tão bela, mulher formada!

Fizemos amor dentro de água.

A primeira vez! Numa ribeira!

 

Vicente Roskopt

 

publicado por Lagash às 16:10
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Domingo, 10 de Agosto de 2008

Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam

 

 

 

 

Nove cavaleiros cavalgaram em passo decidido,

Os nove encontraram o medo perdido,

Agarraram a vida e o conhecimento vivido,

Pela humanidade perdida no mundo esquecido.

 

Imponentes e firmes peregrinos guardaram,

Outros companheiros, mestres tornaram,

Para a Sua gloria e amor glorificaram,

E hoje ainda, os há, quem sabe ficaram?

 

Fortes e ricos eram em vida, o querer,

Na mão tinham, terras, reinos e poder,

Nada tinham no fundo, era apenas o ser,

Riqueza de dentro, amor e prazer.

 

Na morte, p’la cruz, a rosa e a vida,

O sangue derrama na terra pérfida,

Além ascendem com a alma aquecida,

O amor pelo próximo, sempre em cada investida.

 

Com espada de fogo combatem o mal,

Rodopiam pelo ar que provoca a espiral,

De branco tingidos de água e cal,

A terra de sangue em cruz por igual.

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:03
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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