Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Noite

 

 

 

 

 

Noite!

Noite rasgando o caminho

Por onde descalça apago

Estrelas no meu destino!

 

Noite!

Noite de bocas escuras!

Famintas de criaturas

Que sem se verem, e sentirem,

levam o mesmo descaminho.

 

Natália Correia

 

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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Silêncio

 

 

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;

redoma de cristal este silêncio imposto.

Que lívido museu! Velado, sepulcral.

Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

 

Um hálito de medo embaciando o vidrado

dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.

Na silente armadura, e sobre si fechado,

ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

 

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós

que a própria voz do mar segue o risco de um disco...

Não cessa de tocar; não cessa a sua voz.

Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

 

David Mourão-Ferreira

 

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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Adoração

 

 

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão

Em mim não é amor; filha, é adoração!

Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.

Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,

E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa

Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça

do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante

Eu sinto? virgem linda, inefável, radiante,

Envolta num clarão balsâmico da lua,

A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!

Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:

Além de bela és santa; além de estrela és rosa.

Bendito seja o deus, bendita a Providência

Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,

O deus que te criou, anjo, para eu te amar,

E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

 

Guerra Junqueiro

 

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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Forma de inocência

 

 

Hei-de morrer inocente

exactamente

como nasci.

Sem nunca ter descoberto

o que há de falso ou de certo

no que vi.

 

Entre mim e a Evidência

paira uma névoa cinzenta.

Uma forma de inocência,

que apoquenta.

 

Mais que apoquenta:

enregela

como um gume

vertical.

E uma espécie de ciúme

de não poder ser igual.

 

António Gedeão

 

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Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Soneto do Amor Total

 

 

Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade

Amo-te, enfim, como grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente

 

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo, de repente

Hei-de morrer de amar mais do que pude.

 

Vinicius de Moraes

 

publicado por Lagash às 16:23
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

A vida

 

(Colorado Headwaters Fall) 

 

A vida

às portas da vida

 

e o azul masculino de um rio

 

Amor Ardente

de forma distinta

 

Mário Cesariny de Vasconcelos

 

publicado por Lagash às 16:25
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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Proh Pudor

 

 

Todas as noites ela me cingia

Nos braços, com brandura gasalhosa;

Todas as noites eu adormecia,

Sentindo-a desleixada a langorosa.

 

Todas as noites uma fantasia

Lhe emanava da fronte imaginosa;

Todas as noites tinha uma mania,

Aquela concepção vertiginosa.

 

Agora, há quase um mês, modernamente,

Ela tinha um furor dos mais soturnos,

Furor original, impertinente...

 

Todas as noites ela, ah! sordidez!

Descalçava-me as botas, os coturnos,

E fazia-me cócegas nos pés...

 

Cesário Verde

 

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Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Felicidade

 

 

Pela flor pelo vento pelo fogo

Pela estrela da noite tão límpida e serena

Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo

Pelo amor sem ironia – por tudo

Que atentamente esperamos

Reconheci a tua presença incerta

Tua presença fantástica e liberta

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

publicado por Lagash às 16:13
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Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Doce sonho suave e soberano

 

 

Doce sonho, suave e soberano,

se por mais longo tempo me durara!

Ah! quem de sonho tal nunca acordara,

pois havia de ver tal desengano!

 

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,

se por mais largo espaço me enganara!

Se então a vida mísera acabara,

de alegria e prazer morrera ufano.

 

Ditoso, não estando em mim, pois tive,

dormindo, o que acordado ter quisera.

Olhai com que me paga meu destino!

 

Enfim, fora de mim, ditoso estive.

Em mentiras ter dita razão era,

pois sempre nas verdades fui mofino.

 

Luís Vaz de Camões

 

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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Languidez

 

("Jove Decadente" por Ramon Casas, 1910) 

 

 

Tardes da minha terra, doce encanto,

Tardes duma pureza de açucenas,

Tardes de sonho, as tardes de novenas,

Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,

 

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!...

Horas benditas, leves como penas,

Horas de fumo e cinza, horas serenas,

Minhas horas de dor em que eu sou santo!

 

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,

Que poisam sobre duas violetas,

Asas leves cansadas de voar...

 

E a minha boca tem uns beijos mudos...

E as minhas mãos, uns pálidos veludos,

Traçam gestos de sonho pelo ar...

 

Florbela Espanca

 

publicado por Lagash às 16:27
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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Carne de amor

 

 

Carne. Carne de amor. Love-flesh,

como lhe chamou Whitman.

Amada carne até aos bordos cheia

de ardor, fremente de seiva.

Carne endurecida

até à alma. Erecta carne

profunda. Vertical esplendor

subindo às estrelas. Ou mais

alto ainda. Talvez

à eternidade.

Ámen.

 

Eugénio de Andrade

 

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Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Nem tudo o que parece é

 

 

Será que é aquilo que parece?

Ou poderá o que fosse, não ser,

E ser aquilo que me apetece

Em vez daquilo que estou a ver?

 

Não será o que é, por certo,

Nem poderá ser aquilo que penso,

Está mesmo aqui tão perto,

Que os meus olhos não venço.

 

Que pode ser que vê a mente

Que nem o coração ver quer,

E o peito rebenta quando sente.

 

É apenas o que quero perceber:

Será aquilo que não vê a gente,

Mas aquilo que se quer ver?

 

Mário L. Soares

 

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Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Mar, mar e mar

 

 

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que a minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exactamente no meu coração

O mar volta a ser pequeno e meu,

anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

Eugénio de Andrade

 

publicado por Lagash às 16:27
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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Obscura Castidade

 

 

Uma obscura e inquieta castidade

pôs uma flor para mim no jardim mais secreto

num horizonte  de graça e claridade

intangível e perto.

 

Promessa estática no luar

da densidade em mim corpórea,

não é a culpa, é a memória

da primeira manhã do pecado,

sem Eva e sem Adão.

Só o fruto provado

e a serpente enroscada

na minha solidão.

 

Natália Correia

 

publicado por Lagash às 16:05
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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

O teu nome

 

 

Flor de acaso ou ave deslumbrante,

Palavra tremendo nas redes da poesia,

O teu nome, como o destino, chega,

O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo

De todas as cores do dia!

 

Alexandre O’Neil

 

publicado por Lagash às 16:04
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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