Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Ego

 

 

 

“Quem é que tu pensas que és?”
Sempre que eu ouço essa pergunta tremo nas bases.
“Quem é que tu pensas que és?”
Nunca sei se a pergunta é à sério ou uma mera figura de retórica.
“Quem é que tu pensas que és?”
Na dúvida, minto. Digo que penso que sou o que não sou.
E depois passo a ser.
É por isso que já fui mergulhador nas Antilhas, mensageiro na Índia, piloto da Nasa.
Já fui serial killer em Detroit, pop star na Cochinchina, bombeiro, chulo, Bispo de Braga.
Já fui diplomata depois de uma crise matrimonial com uma dona de bar no Arkansas.
Fiz carreira, cheguei a cônsul na Jamaica.
Mas, um dia, numa discussão de trânsito, alguém me perguntou quem eu pensava que era e passei a ser investigador científico renomado.
Estava a pesquisar uma misteriosa virose que atacava uma minoria étnica, quando o meu irritadiço chefe me obrigou a dizer que eu era um palhaço.
Desde então segui a vida num circo, onde as crianças vinham rir das minhas piadas.
Viajei meio mundo, fui à Rússia, ao Ceilão, à ex-Jugoslávia. Casei com a mulher barbada e tive três filhos: um trapezista, um mágico e um anão.
Mais uns anos de trabalho e conseguiria dinheiro para comprar a minha própria tenda.
Até que um dia, o domador, numa inexplicável crise de ciúmes pelo leão, fez-me a pergunta fatídica: “Quem é que tu pensas que és?”
E então eu respondi que era apenas um publicitário com pouco menos de quarenta anos, cliente especial de uns dois ou três bancos, que adora filmes, livros, i-pods e coisas moderninhas, que não sabe se acredita em Deus, mas que tem a certeza que Deus acredita nele, que tem poucos amigos reais e muitos imaginários, que tem medo de chegar ao fim da vida sem ter feito nada que valha realmente a pena esquecer, que tem a mania de que é uma daquelas pessoas sensíveis que a gente encontra nos bares ou naquelas festas de casamento em que não conhecemos os noivos e que costuma dizer que o mundo é duro, injusto e cruel, enquanto pede mais um gin tónico com um ar superior, o tipo de gente que não dá para confiar, pois ao mais pequeno descuido apanha a sua alma, arranca-lhe os olhos, e aproveita-se dela para escrever um conto sem lhe pagar mil contos.
E, o pior, é que dessa vez tenho a impressão de que eu disse a verdade.

 

Edson Athayde

 

publicado por Lagash às 16:22
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