Domingo, 31 de Janeiro de 2010

A Inigualável

 

 

Ai, como eu te queria toda de violetas

E flébil de cetim...

Teus dedos longos, de marfim,

Que os sombreassem jóias pretas...

 

E tão febril e delicada

Que não pudesse dar um passo -

Sonhando estrelas, transtornada,

Com estampas de cor no regaço...

 

Queria-te nua e friorenta,

Aconchegando-te em zibelinas -

Sonolenta,

Ruiva de éteres e morfinas...

 

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -

Teus frenesis, lantejoulas;

E os ócios em que estiolas,

Luar que se desbarata...

 

……………

 

Teus beijos, queria-os de tule,

Transparecendo carmim -

Os teus espasmos, de seda...

 

— Água fria e clara numa noite azul,

Água, devia ser o teu amor por mim...

 

Mário de Sá-Carneiro

 

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Sábado, 30 de Janeiro de 2010

Hora Nostálgica #30 - Olhos nos olhos

 

 

Quando você me deixou, meu bem

Me disse pra ser feliz e passar bem

Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci

Mas depois, como era de costume, obedeci

 

Quando você me quiser rever

Já vai me encontrar refeita, pode crer

Olhos nos olhos, quero ver o que você faz

Ao sentir que sem você eu passo bem demais

 

E que venho até remoçando

Me pego cantando

Sem mais nem porquê

E tantas águas rolaram

Quantos homens me amaram

Bem mais e melhor que você

 

Quando talvez precisar de mim

'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim

Olhos nos olhos, quero ver o que você diz

Quero ver como suporta me ver tão feliz 

 

Chico Buarque

 

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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

O sexo é sagrado...

 

 

O sexo é sagrado,

como salgadas são as gotas de suor

que brotam dos meus poros

e encharcam nossas peles.

A noite é meu templo

onde me torno uma deusa enlouquecida

sentindo teus pelos sobre a minha pele.

Neste instante já não sou nada,

somente corpo,

boca,

pele,

pêlos,

línguas,

bocas.

E a vida brota da semente,

dos poucos segundos de êxtase.

Tuas mãos como um brinquedo

passeiam pelo meu corpo.

Não revelam segredos

desvendam apenas o pudor do mundo,

descobrem a febre dos animais.

Então nos tornamos um

ao mesmo tempo em que

a escuridão explode em festa.

A noite amanhece sem versos,

com a música do seu hálito ofegante.

O sol brota de dentro de mim.

Breves segundos.

Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.

Eu fui feliz.

 

Cláudia Marczak

 

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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Noite

 

 

 

 

 

Noite!

Noite rasgando o caminho

Por onde descalça apago

Estrelas no meu destino!

 

Noite!

Noite de bocas escuras!

Famintas de criaturas

Que sem se verem, e sentirem,

levam o mesmo descaminho.

 

Natália Correia

 

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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Silêncio

 

 

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;

redoma de cristal este silêncio imposto.

Que lívido museu! Velado, sepulcral.

Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

 

Um hálito de medo embaciando o vidrado

dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.

Na silente armadura, e sobre si fechado,

ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

 

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós

que a própria voz do mar segue o risco de um disco...

Não cessa de tocar; não cessa a sua voz.

Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

 

David Mourão-Ferreira

 

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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Adoração

 

 

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão

Em mim não é amor; filha, é adoração!

Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.

Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,

E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa

Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça

do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante

Eu sinto? virgem linda, inefável, radiante,

Envolta num clarão balsâmico da lua,

A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!

Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:

Além de bela és santa; além de estrela és rosa.

Bendito seja o deus, bendita a Providência

Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,

O deus que te criou, anjo, para eu te amar,

E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

 

Guerra Junqueiro

 

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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Forma de inocência

 

 

Hei-de morrer inocente

exactamente

como nasci.

Sem nunca ter descoberto

o que há de falso ou de certo

no que vi.

 

Entre mim e a Evidência

paira uma névoa cinzenta.

Uma forma de inocência,

que apoquenta.

 

Mais que apoquenta:

enregela

como um gume

vertical.

E uma espécie de ciúme

de não poder ser igual.

 

António Gedeão

 

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Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Hora Nostálgica #29 - Sign your name

 

 

Fortunately you have got

Someone who relies on you

We started out as friends

But the thought of you just caves me in

The symptoms are so deep

It is so much too late to turn away

We started out as friends

 

Sign your name

Across my heart

I want you to be my baby

Sign your name

Across my heart

I want you to be my lady

 

Time I'm sure will bring

Disappointments in so many things

It seems to be the way

When your gambling cards on love you play

I'd rather be in Hell with you baby

Than in cool Heaven

It seems to be the way

 

Sign your name

Across my heart

I want you to be my baby

Sign your name

Across my heart

I want you to be my lady

 

Birds never look into the sun

Before the day is gone

But the light shines brighter

On a peaceful day

Stranger blue leave us alone

We don't want to deal with you

We'll shed our stains showering

In the room that makes the rain

 

All alone with you

Makes the butterflies in me arise

Slowly we make love

And the Earth rotates

To our dictates

Slowly we make love

 

Sign your name

Across my heart

I want you to be my baby

Sign your name

Across my heart

I want you to be my lady

 

Terence Trent D'Arby

 

publicado por Lagash às 16:06
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Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Soneto do Amor Total

 

 

Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade

Amo-te, enfim, como grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente

 

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo, de repente

Hei-de morrer de amar mais do que pude.

 

Vinicius de Moraes

 

publicado por Lagash às 16:23
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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Quem disse que não temos talentos? #30 A Marte

 

 

Acordei de manhã

Ainda meio baralhado

De teres sido tu a estrela

Daquele filme alugado

 

Deixámos o Bruce Lee

Entregue às artes marciais

Quando olhaste para mim

Sem efeitos especiais

 

A Marte, vou a Marte

Se é o que tu queres

Eu vou a Marte!

 

Fui ter contigo ao café

Não me cansei de olhar para ti

Disseste mata-me a sede

Tira-me daqui

 

E o mercúrio subiu

E eu não sou de pedra

P’ra uma Vénus como tu

Não há água nesta terra!

 

A Marte, vou a Marte

Se é o que tu queres

Eu vou a Marte!

 

Estou em terra

Se não me engano

Fizeste de mim

Um verdadeiro marciano

 

A Marte, vou a Marte

Se é o que tu queres

Eu vou a Marte!

 

João Só e Abandonados

 

publicado por Lagash às 16:01
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Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Pedras no caminho

 

 

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.

 

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

 

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um "não".

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

 

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

 

Fernando Pessoa

 

publicado por Lagash às 16:07
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Coragem

 

(Stupe Island) 

 

 

Será enfrentar o medo ou conseguir vencer a dor. Pode ser vencer obstáculos. É tornear o perigo de frente. É fazer ou dizer alguma coisa conseguindo superar uma ameaça subjacente à acção ou consequente ao que foi dito.

 

Sendo o medo um sentimento gerado por um estímulo externo ou interno provocado por uma ameaça, dor (física ou psicológica) ou traumas do passado, que gera reacções de alerta e atenção no corpo humano com injecção de adrenalina e cortisol, preparando-o para resistir à agressão “medo” – a coragem é a acção ou reacção originada por essa alteração hormonal, e que defende o ser humano do que o atormenta.

 

Filosoficamente, a coragem é um acto altruísta que (como indica) tem como objectivo a defesa ou luta por algo superior a quem o faz, ou cujo ganho é externo a quem o faz. Dessa forma a coragem é um sentimento que tem características únicas e que nos leva a superarmos as nossas limitações e levarmos um pouco mais longe as nossas acções.

 

Nos filmes e na música, a coragem é um dos mais fortes sentimentos a ser descritos, pela sua sempre originalidade e particular distinção perante os outros sentimentos.

 

Poeticamente, a coragem foi, desde sempre descrita e exaltada. Desde os heróis romanos e gregos, envolvidos em mitologia e divindades, até aos anónimos nas guerras, passando pelo comum dos mortais, que também pode ser herói.

 

E na nossa vida? Quem tem coragem para ter coragem? Que tem coragem de mudar de vida? Quem o quer fazer, e não tem coragem? Quem não gostava, às vezes, de ter coragem?

 

Tenhamos coragem! Tenhamo-la!

 

A vida é curta, e devemos seguir o nosso coração. Abracemos o futuro com sorrisos, lágrimas e medo (sim, medo), mas sem olhar para trás! Com confiança e principalmente – coragem.

 

Força para todos!

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 16:25
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

A vida

 

(Colorado Headwaters Fall) 

 

A vida

às portas da vida

 

e o azul masculino de um rio

 

Amor Ardente

de forma distinta

 

Mário Cesariny de Vasconcelos

 

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Domingo, 17 de Janeiro de 2010

Espalhem a notícia

 

 

Espalhem a notícia

do mistério da delícia

desse ventre

Espalhem a notícia

do que é quente e se parece

com o que é firme e com o que é vago

esse ventre que eu afago

que eu bebia de um só trago

se pudesse

 

Divulguem o encanto

o ventre de que canto

que hoje toco

a pele onde à tardinha desemboco

tão cansado

esse ventre vagabundo

que foi rente e foi fecundo

que eu bebia até ao fundo

saciado

 

Eu fui ao fim do mundo

eu vou ao fundo de mim

vou ao fundo do mar

vou ao fundo do mar

no corpo de uma mulher

vou ao fundo do mar

no corpo de uma mulher

bonita…

 

A terra tremeu ontem

não mais do que anteontem

pressenti-o

O ventre de que falo como um rio

transbordou

e o tremor que anunciava

era fogo e era lava

era a terra que abalava

no que sou

 

Depois de entre os escombros

ergueram-se dois ombros

num murmúrio

e o sol, como é costume, foi um augúrio

de bonança

sãos e salvos, felizmente

e como o riso vem ao ventre

assim veio de repente

uma criança

 

Eu fui ao fim do mundo

eu vou ao fundo de mim

vou ao fundo do mar

vou ao fundo do mar

no corpo de uma mulher

vou ao fundo do mar

no corpo de uma mulher

bonita…

 

Falei-vos desse ventre

quem quiser que acrescente

da sua lavra

que a bom entendedor meia palavra

basta, é só

adivinhar o que há mais

os segredos dos locais

que no fundo são iguais

em todos nós

 

Eu fui ao fim do mundo

eu vou ao fundo do mim

vou ao fundo do mar

vou ao fundo do mar

no corpo de uma mulher

vou ao fundo do mar

no corpo de uma mulher

bonita…

 

Sérgio Godinho

 

publicado por Lagash às 16:27
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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Proh Pudor

 

 

Todas as noites ela me cingia

Nos braços, com brandura gasalhosa;

Todas as noites eu adormecia,

Sentindo-a desleixada a langorosa.

 

Todas as noites uma fantasia

Lhe emanava da fronte imaginosa;

Todas as noites tinha uma mania,

Aquela concepção vertiginosa.

 

Agora, há quase um mês, modernamente,

Ela tinha um furor dos mais soturnos,

Furor original, impertinente...

 

Todas as noites ela, ah! sordidez!

Descalçava-me as botas, os coturnos,

E fazia-me cócegas nos pés...

 

Cesário Verde

 

publicado por Lagash às 16:01
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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