Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Estrela da tarde

 

 

 

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

Letra: José Carlos Ary dos Santos

Musica: Fernando Tordo

Interprete: Carlos do Carmo

 

 

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Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

Nocturno

 

 

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

 

Antero de Quental

 

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Terça-feira, 29 de Julho de 2008

Seus Olhos

 

 

Seus olhos - se eu sei pintar

O que os meus olhos cegou -

Não tinham luz de brilhar.

Era chama de queimar;

E o fogo que a ateou

Vivaz, eterno, divino,

Como facho do Destino.

 

Divino, eterno! - e suave

Ao mesmo tempo: mas grave

E de tão fatal poder,

Que, num só momento que a vi,

Queimar toda alma senti...

Nem ficou mais de meu ser,

Senão a cinza em que ardi.

 

Almeida Garrett

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Sábado, 26 de Julho de 2008

Com que voz

 

 

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

 

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

 

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

 

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

 

Amália Rodrigues - 1970

 

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Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Falavam-me de amor

 

 

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

 

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

 

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

 

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

 

 

Natália Correia

em "O Dilúvio e a Pomba"

 

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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Mors - Amor

 

 

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

Antero de Quental

 

publicado por Lagash às 16:28
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Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Desencanto

 

 

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
 
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
 
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
 
– Eu faço versos como quem morre.

 

 

 

Manuel Bandeira

 

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Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Quatro rosas

 

 

Quatro rosas te daria se pudesse…

Se eu pudesse, mudaria o mundo.

Se eu quisesse, daria a ti o que fosse…

Quatro rosas, de vermelho profundo.

 

Não posso manter esta ilusão,

De estar sem poder estar, nem poder ser…

Por isso mantenho a minha razão,

Sofro, mas não te as posso oferecer.

 

Sinto-o no coração – talvez nada te diga agora;

Mas o amor fica para sempre e sente

Não se manda pela janela fora…

Queima o interior e a mente.

 

Beijo-te e despeço-me. Desculpa-me …

Adeus… eternamente, gostei de ti.

 

Mário L. Soares

 

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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Al Pacino's Inspirational Speech

 

 

 

I don’t know what to say really.
Three minutes
to the biggest battle of our professional lives
all comes down to today.
Either
we heal
as a team
or we are going to crumble.
Inch by inch
play by play
till we’re finished.
We are in hell right now, gentlemen
believe me
and
we can stay here
and get the shit kicked out of us
or
we can fight our way
back into the light.
We can climb out of hell.
One inch, at a time.

 

Now I can’t do it for you.
I’m too old.
I look around and I see these young faces
and I think
I mean
I made every wrong choice a middle age man could make.
I uh….
I pissed away all my money
believe it or not.
I chased off
anyone who has ever loved me.
And lately,
I can’t even stand the face I see in the mirror.

 

You know when you get old in life
things get taken from you.
That’s, that’s part of life.
But,
you only learn that when you start losing stuff.
You find out that life is just a game of inches.
So is football.
Because in either game
life or football
the margin for error is so small.
I mean
one half step too late or to early
you don’t quite make it.
One half second too slow or too fast
and you don’t quite catch it.
The inches we need are everywhere around us.
They are in ever break of the game
every minute, every second.

 

On this team, we fight for that inch
On this team, we tear ourselves, and everyone else around us
to pieces for that inch.
We CLAW with our finger nails for that inch.
Cause we know
when we add up all those inches
that’s going to make the fucking difference
between WINNING and LOSING
between LIVING and DYING.

 

I’ll tell you this
in any fight
it is the guy who is willing to die
who is going to win that inch.
And I know
if I am going to have any life anymore
it is because, I am still willing to fight, and die for that inch
because that is what LIVING is.
The six inches in front of your face.

 

Now I can’t make you do it.
You gotta look at the guy next to you.
Look into his eyes.
Now I think you are going to see a guy who will go that inch with you.
You are going to see a guy
who will sacrifice himself for this team
because he knows when it comes down to it,
you are gonna do the same thing for him.

 

That’s a team, gentlemen
and either we heal now, as a team,
or we will die as individuals.
That’s football guys.
That’s all it is.
Now, what are you gonna do?

 

Al Pacino no filme “Any Given Sunday”

 

publicado por Lagash às 16:32
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Domingo, 20 de Julho de 2008

Gato que brincas na rua

 

 

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

 

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

 

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

 

Fernando Pessoa

 

publicado por Lagash às 15:18
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Sábado, 19 de Julho de 2008

Liberdade...

 

 

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não fazer !

Ler é maçada,

Estudar é nada.

Sol doira

Sem literatura

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como o tempo não tem pressa...

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D.Sebastião,

Quer venha ou não !

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

Mais que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

 

Fernando Pessoa (lido por João Villaret)

publicado por Lagash às 18:41
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Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

Cavalo à solta

 

 

 

Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, meu poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sussego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo
Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura

 

Fernando Tordo / José Carlos Ary dos Santos

 

publicado por Lagash às 17:43
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Domingo, 13 de Julho de 2008

Viagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aparelhei o barco da ilusão

 

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar…

(Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmentida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

 

Miguel Torga

 

 

 

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Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Eu sou a concha das praias

Eu sou a concha das praias
Que anda batida da onda
E, de vaga em outra vaga,
Não tem aonde se esconda.
Mas se um menino, da areia
A colher e a for guardar
No seio... ali adormece
E é ali seu descansar.
Pois sou a concha da praia
Que anda batida da onda...
Sê tu esse seio infante,
Aonde a triste se esconda!
 

Eu sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto,
Contando por suas dores
As areias do deserto.
Mas se um palmar, no horizonte,
Se vê, súbito, surgir,
Tem ali a tenda e a fonte
E é ali o seu dormir.
Pois sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto...
Sê tu sombra de palmeira,
Sê-me tenda no deserto!
 
Sou o peito sequioso
E o viúvo coração,
Que em vão chama, em vão procura
Outro peito, seu irmão.
Mas se avista, um dia, a alma
Por quem andou a chamar,
Tem ali ninho e ventura
E é ali o seu amar.
Pois sou quem anda chorando
À procura dum irmão...
Sê tu a alma que me fale,
Inda uma hora ao coração!

  

 

 

Antero de Quental

 

publicado por Lagash às 20:03
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Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Afasta de mim este cálice

 

 

Malfadado vinho que me toldas a mente!

Álcool que embriagas a alma

E tudo à volta desaparece de repente,

Sem que nada perca a sua calma.

 

Cálice que não te afastas de mim

Serpente que a minha maçã mordes!

Quem te trouxe até aqui?

Porque não me largas e me cobres?

 

Tenho esperança que saias da minha vida…

Peço-te, deixa-me, por favor, viver…

Pagarei eu para sempre esta dívida?

Livra-me deste tormento, estou a sofrer!

 

Entrego-me, farei o que queres, pronto,

Não te dou a minha alma, mas dá-me a vida de volta.

Paremos agora o nosso confronto…

Desejo-o tanto, sinto agora que se solta…

 

Mas… que queres tu?

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 20:12
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Declaração

Declaro que a responsabilidade de todos os textos / poesia / prosa publicados é minha no respeitante à transcrição dos mesmos. Faço todos os possíveis para contactar o(s) autor(es) dos trabalhos a fim de autorizarem a publicação, na impossibilidade de o fazer, caso assim o entenda o autor ou representante legal deverá contactar-me a fim de que o mesmo seja retirado - o que será feito assim que receba a informação. Os trabalhos assinados "Mário L. Soares" são de minha autoria e estão protegidos com a lei dos direitos de autor vigente. Quanto às fotografias, todas, cujo autor não esteja identificado, são de "autor desconhecido" - caso surja o respectivo autor de alguma, queira por favor contactar-me para proceder à sua identificação e se for caso disso retirada do blog. Às restantes fotografias aplicarei o mesmo princípio dos trabalhos escritos. Obrigado. Mário L. Soares - lagash.blog@sapo.pt

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