Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Arrojos

 

 

Se a minha amada um longo olhar me desse

Dos seus olhos que ferem como espadas,

Eu domaria o mar que se enfurece

E escalaria as nuvens rendilhadas.

 

Se ela deixasse, extático e suspenso

Tomar-lhe as mãos «mignonnes» e aquecê-las,

Eu com um sopro enorme, um sopro imenso

Apagaria o lume das estrelas.

 

Se aquela que amo mais que a luz do dia,

Me aniquilasse os males taciturnos,

O brilho dos meus olhos venceria

O clarão dos relâmpagos nocturnos.

 

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,

Casando as suas penas com as minhas,

Eu desfaria o Sol como desfaço

As bolas de sabão das criancinhas.

 

Se a Laura dos meus loucos desvarios

Fosse menos soberba e menos fria,

Eu pararia o curso aos grandes rios

E a terra sob os pés abalaria.

 

Se aquela por quem já não tenho risos

Me concedesse apenas dois abraços,

Eu subiria aos róseos paraísos

E a Lua afogaria nos meus braços.

 

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos

E os lamentos das cítaras estranhas,

Eu ergueria os vales mais profundos

E abateria as sólidas montanhas.

 

E se aquela visão da fantasia

Me estreitasse ao peito alvo como arminho,

Eu nunca, nunca mais me sentaria

Às mesas espelhentas do Martinho.

 

Cesário Verde

 

publicado por Lagash às 16:05
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3 comentários:
De Anónimo a 21 de Agosto de 2009 às 23:57
Que curioso… Procurava referências ao Projecto Amália Hoje e deparei-me com o seu blog.
De repente, vi-me presa a recordações, relembrando Cesário Verde e as “dissecações secantes” (como eu gostava de designar para chatear o meu professor de literatura daquele ano – confesso que a minha rebeldia naquelas aulas o incomodava, mas no final do semestre, ainda me presenteou com uma boa nota e uma observação que ainda lembro: “a menina é terrível, mas a sua impertinência e ousadia obrigaram-me a ser melhor. Obrigado pelo desafio” – Já lá vão tantos anos, como é que me consegui recordar disto agora??!!!) que fiz a todos os seus poemas, os da Crise Romanesca e os Naturais. Recordei o homem e o poeta, refém de dois mundos tão iguais, mas numa constante louca e vã tentativa de procurar a perfeição do fabricado. Mais tarde, percebi que a sua transfiguração da realidade não seria, de facto, um pretexto para fugir ao concreto, mas sim o único processo de conseguir captar a essência da própria representação do real. O poeta pintor, cuja alma pretendia captar (numa ânsia desesperada de sobrevivência, vencendo o tempo e a morte: “Se eu não morresse nunca!”) o ritmo do vivo e do real, cinematizando a vida citadina.
Arrojos não é das suas poesias dispersas a que mais aprecio, mas um agradecimento muito especial por me ter feito recordar as minhas aulas de Literatura Portuguesa, que me ajudaram, de alguma forma, a melhor assimilar e apreender o mundo frenético e em constante mutação evolutiva que hoje me rodeia. Obrigada!
De Lagash a 22 de Agosto de 2009 às 13:30
Olá,

Não tem nada que agradecer. Ainda que fosse eu o poeta, aí sim seria devido algum agradecimento.

Eu é que agradeço a análise ao poeta, que admiro, e que continuarei a publicar no meu blog.

Fiquei sem saber duas coisas. Uma - qual a mais (ou as mais) apreciadas poesias para si. E, não querendo saber demais, o nome da senhora que visitou o meu cantinho...


Obrigado
Mário L. Soares
De Anónimo a 22 de Agosto de 2009 às 16:06
:-)
Porque hoje estou, realmente, muito desorganizada em termos temporais e a minha agenda desta tarde não me permite estar sentada ao computador mais que 3 minutos, respondo-lhe muito sucintamente:
O eclectismo faz parte integrante da minha pessoa e, para ser totalmente honesta, não posso dizer que a que mais aprecio é... (creio que me compreenderá).
Quanto ao meu nome? Dir-lhe-ei depois...
Entretanto, deixo-lhe a minha sugestão para este sábado quente: "Pedra de Canto" de Vitorino Nemésio.
Um bom dia para si!

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