Domingo, 6 de Abril de 2008

Sem coração

Não tinha coração. Nasceu sem. Não que isso fosse um problema, uma crise no sistema, uma questão por aí além.

Não tinha coração. E isso era até uma vantagem, sublime malandragem, tendo em vista que, quem tem coração, costuma ser bobo. E ele, que não era nenhum menino de coro, nasceu para se dar bem.

Como não tinha coração, também não tinha sangue, como as santas, as baratas e as vamps. Mas tinha um propósito na vida, seria o dono do mundo, ou não se chamaria Raimundo, o que, além de uma rima, era uma solução.

Viveu sem escrúpulos, roubou doces aos miúdos, vendeu a mãe várias vezes, mas nunca entregou. Seguia à risca o seu plano selvagem, para tudo tinha coragem, até que um dia, daqueles normais em que apetece dar banho ao cão ou visitar a tia, Raimundo encontrou Maria Rita (ou Rita Maria, nunca soube ao certo), doce menina dos olhos verdes e sorriso aberto.

Rita Maria (ou Maria Rita) tinha ido à cidade fazer uma promessa, pois sofria de uma terrível mazela: amava ao próximo como a si mesma. O problema é que o próximo era sempre o que estava mais perto, fosse branco, preto ou amarelo, sem nenhuma descriminação de idade, sexo ou credo.

Maria Rita, com tanto amor para dar, recebia muito pouco. Sofria com aquele amor sem morada, sem nome, sem nexo, sem cara. daí ter feito uma promessa tão rara: se pudesse não amar um homem, fosse ele um politico, um mendigo ou artista, subiria o Everest de joelhos.

Raimundo, reparou em Rita Maria a fazer a promessa na igreja e apaixonou-se à primeira vista. Para quem não tinha coração, aquilo era muito, um despautério, um absurdo. Daí que Raimundo sentiu uma dor no peito. Era um coração que ali nascia meio sem jeito e quanto mais ele mirava Maria Rita mais o órgão crescia, crescia, crescia.

Rita Maria, afinal, deu pelo Raimundo, o outrora dono do mundo, mas agora um simples mortal. como por um milagre, não se apaixonou. Pelo contrário, sentiu escárnio, viu em Raimundo um pobre, um lixo, um chulo.

Raimundo, apaixonado, perdeu o rumo, perdeu o chão, perdeu tudo. passou a andar pelas ruas como um cão, a beber, a fazer poesias concretas em mau francês, típicas de um ébrio esteta que amava pela primeira vez.

Maria Rita sabia daquele amor impossível e ria-se do amante falhado, sem eira nem beira, vestido de trapos, que fazia vénias quando ela passava em direcção da padaria, da farmácia ou da missa.

Em pouco tempo, o coração de Raimundo já estava do tamanho de uma bomba, daquelas de cartoon, tipo assim redonda, com um pavio aceso na ponta, prestes a rebentar. Rita Maria não só sabia da triste história como ainda alimentava a paródia, fazia olhinhos sempre que o encontrava, mas depois travava qualquer investida.

Várias foram as vezes em que a sacripanta entrou na tasca para tripudiar do cretino, que chorava aos seus pés como um Deus menino, enquanto ela, indiferente, bebia uma Fanta.

Depois de uns tempos e de uns ventos de monção, Raimundo não aguentou e a bomba do seu coração estoirou, voando pedaços de paixão para todos os lados, emporcalhando jardins, muros, telhados.

Raimundo morreu num instante, desprezado enquanto amante, mas misteriosamente feliz. Como todos os apaixonados, mesmo os renegados, Raimundo teve, por um triz, a sorte madrasta de saber para que servia era um coração de verdade. E Maria Rita, na sua sublime maldade, aquela que amava a todos menos um, decidiu, um bocado na pressa, pagar sua promessa, rumando para o Nepal.

Mal lá chegou, apaixonou-se por um monge budista, chamado Ming, meio santo, meio autista, que, diziam as más línguas, era um ex-amante do Sting.

O monge, com um certo azedume, desprezou solenemente a donzela. que morreu como uma cadela, congelada de joelhos bem pertinho do cume.

O monge, não sem uma suspeita alegria, no lugar onde Rita Maria jazia, tentou sem sucesso plantar um arvoredo. de Raimundo, o que queria ser dono do mundo, ninguém guardou memória. e essa é a moral da história: quem tem coração, tem medo.

 

 

Edson Athayde

publicado por Lagash às 17:15
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