Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Impossível

 

 

Nós podemos viver alegremente,

Sem que venham com fórmulas legais,

Unir as nossas mãos, eternamente,

As mãos sacerdotais.

 

Eu posso ver os ombros teus desnudos,

Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,

E até beijar teus olhos tão ramudos,

Cor de azeitona escura.

 

Eu posso, se quiser, cheio de manha,

Sondar, quando vestida, p’ra dar fé,

A tua camisinha de bretanha,

Ornada de crochet.

 

Posso sentir-te em fogo, escandecida,

De faces cor-de-rosa e vermelhão,

Junto a mim, com langor, entredormida,

Nas noites de verão.

 

Eu posso, com valor que nada teme,

Contigo preparar lautos festins,

E ajudar-te a fazer o leite-creme,

E os mélicos pudins.

 

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,

Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,

Hinos de amor, vestidos de veludo,

E botas de duraque

 

E até posso com ar de rei, que o sou!

Dar-te cautelas brancas, minha rola,

Da grande lotaria que passou,

Da boa, da espanhola,

 

Já vês, pois, que podemos viver juntos,

Nos mesmos aposentos confortáveis,

Comer dos mesmos bolos e presuntos,

E rir dos miseráveis.

 

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,

Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,

Beber na mesma chávena da China,

O nosso chocolate.

 

E podemos até, noites amadas!

Dormir juntos dum modo galhofeiro,

Com as nossas cabeças repousadas,

No mesmo travesseiro.

 

Posso ser teu amigo até à morte,

Sumamente amigo! Mas por lei,

Ligar a minha sorte à tua sorte,

Eu nunca poderei!

 

Eu posso amar-te como o Dante amou,

Seguir-te sempre como a luz ao raio,

Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,

Lá essa é que eu não caio!

 

Cesário Verde

 

publicado por Lagash às 16:29
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