Domingo, 6 de Abril de 2008

Caro amigo deus - Capitulo I

Caro amigo deus,

 

Não te conheço muito bem, e embora fale contigo diariamente, torna-se muito difícil perceber a tua vontade. Escrevo-te para desabafar as minhas mágoas e para te dar conhecimento da minha vida.

 

Por cá as coisas vão como tu queres (pois), não sei se bem se mal… o trabalho faz-se, o dinheiro é pouco, e a universidade é dura.

 

No mundo há muita porcaria – e não me refiro a coisas distantes do nosso país ou da nossa cidade. Mas disso deves ter conhecimento, no entanto não vejo porque deixas que aconteçam. Sei perfeitamente que tudo tem um propósito, nada acontece por acaso e que escreves direito por linhas tortas. Mas há coisas que… não sei que diga. Tu terás as tuas razões.

 

No que me diz respeito, continuo na minha guerra contra mim mesmo. Tento ser melhor, mas continuo a espalhar-me. Tento aperfeiçoar a minha personalidade, tento minimizar os defeitos, aumentar as minhas qualidades, mas acabo, na maioria das vezes, por fazer porcaria.

 

Por um lado, é-me muito difícil conviver com certas pessoas, felizmente não o tenho que fazer constantemente, mas há pessoas que parece que são más por natureza – o que sei que não é verdade – sei bem que as pessoas, no seu âmago têm bondade, mas têm também maldade, inveja, cobiça e outros grandes defeitos. Sei que ninguém faz mal por fazer mal. Fazem-no porque pensam que está bem, ou não pensam, pura e simplesmente. Se assim não for é porque têm graves problemas psicológicos e não distinguem o bem do mal, ou se assim não for, então sou eu que estou a ver as coisas mal e há mesmo pessoas más.

 

O ser humano é realmente complicado. Não sei como nos aturas, sinceramente! Outro já nos teria entregado ao inferno, direitinhos! Mas não… manténs-nos aqui, vivendo, morrendo, como que para ver o que dá e até onde vamos. Sabes muito bem para onde vamos, queres sim ver o caminho que levamos, não é? Não te divertes, é certo, mas vês-nos como a um documentário televisivo. Analisas e corriges, ou deixas viver. Mexes e alteras ou permites as nossas acções.

 

O diabo, acho, não está por cá em pessoa, mas parece que está feito aos bocadinhos dentro de nós. Gostava que nos ajudasses a libertar-nos dele (que somos nós). Pois é, também sei, nós é que temos de o mandar embora. Pois! É mais fácil falar do que fazer. Porque é que não nos dás uma ajuda? Sei que ajudas, é verdade, mas sempre por estranhas maneiras, mensagens obscuras, sinais ocultos… gostava que fosses mais directo. Não sei se peço demais… se sim, peço desculpa.

 

Ah! Lembrei-me! Não pus as maiúsculas de cada vez que me refiro a ti. Será que é importante? Não sei… todos dizem que “é assim que se deve fazer”, será? Será desrespeito? Lá está, esta é das tais (até das mais simples) que não sabemos como agir.

 

Deveremos seguir a bíblia? O corão? Ou outro livro sagrado? É sagrado para uns, blasfémico para outros… não sei. Sei é que há muita celeuma por causa dos livros. Sem que saibamos qual (se não todos) é a tua lei.

 

Pois é, não há provas, nem tas estou a pedir – não te quero irritar – num dos livros, pelo menos, por muito menos dizimaste gerações. Mas como devemos proceder? Por mim (se fosse eu a mandar) unificava a coisa. Não achas boa ideia? Assim todos sabíamos que lei seguir.

 

Também sei que no fundo todas as leis de todos os livros dizem coisas parecidas e muitas vezes iguais, e que o seguidor ferrenho de qualquer um deles, continua a não te respeitar. Mas porquê? Esta é a minha pergunta? Porque é que não fazemos o que queres?

 

Que é que queres de nós afinal? Porque razão aqui estamos? Muitos, por cá, teorizam a esse respeito. Concordo mais com uns que com outros, acho mais interessante a visão de uns do que a de outros, tenho opinião, eu próprio a esse respeito, mas no fundo, não sei qual a tua vontade exactamente… Não sei – com certeza – a razão pela qual nos cá puseste. Esta é muito difícil… Começo logo por questões existenciais… Não me leves a mal.

 

Posso dizer-te que não gosto de guerras. Não gosto das grandes, nem das pequenas, nem das com sangue, nem das sem ele. Gosto de discutir opiniões para enriquecer o saber, mas não percebo porque se tem de entrar por caminhos mais perversos.

 

Porque razão se matam as pessoas? Porque é que se odeiam? Não consigo odiar ninguém a esse ponto! Não compreendo o que leva as pessoas a fazer mal a outras, da maneira como o fazem, seja por que razão seja… não entra!

 

Por vezes, odeio atitudes de pessoas, odeio atitudes de grupos de pessoas e de povos inteiros, mas não é por isso que vou lá matá-los a todos! Não é isso que vai resolver, certo? Se calhar, estou errado, porque já li, supostamente, relatos de coisas que fizeste, muito parecidas, como acabar com um monte de gente por terem feito uma estátua! Não quero acreditar que o tenhas feito! Ou então é porque a noção que tenho de valor da vida humana, está completamente errada… será isso?

 

Se calhar, damos valor a coisas que não devemos. Se calhar, o individual não interessa, o colectivo é que deverá ser visado. Ou então é tudo ao contrário e o individual é o universo e o colectivo não vale nada!

 

Não sei. Seria muito bom clarificar isto. Tenho as minhas ideias, concordo com uns, discordo de outros, mas… a tua ideia…

 

Como é que te pronuncias? Não era tão melhor, simplesmente apareceres ao ouvido da gente e dizeres: “Olha lá, ó menino! Veja lá se se porta bem e não deita papeis para o chão!” – eu acho que era muito mais eficiente! Desculpa se te ofendo. Não o quero fazer. Só gostava que as coisas fossem mais simples, entendes? Claro que entendes! Estás em todo lado. Ouves e vês tudo. Sentes e sabes tudo. Eu sei isso. Mas não te oiço, vejo ou sinto de uma forma directa.

 

Tenho que me esforçar muito para o fazer. Tenho que te perceber no meio das palavras dos outros, entender-te nos cataclismos e observar-te nos escritos de outras mãos, e nas palavras das pessoas que me rodeiam.

 

Pois.

 

São tantas as coisas que mudaria – se fosse eu que mandasse – mas és tu que mandas. E tu fazes à tua maneira. Sei que és o bem unificado, que combates o mal e nos levas ao melhor que podemos ser, mas às vezes o caminho é tortuoso! Porque é que temos de o fazer? Não nos podes “obrigar” a fazer o devemos? Impedir que sejamos injustos e odiosos? Logo assim directamente. Porque, não? Se fosse eu era assim que fazia. Não andava com rodeios.

 

Compreendo, no entanto, que a lição é por vezes mais importante que o prémio. E que as coisas dadas não têm valor… eu sei disso. Mas porque é que tem de ser assim? Porque razão não nos fazes aprender logo à primeira! Teremos que errar vezes sem conta e aprender sozinhos?

 

Teremos nós que nos matar a todos para nos libertarmos? Que é que vai sobrar? Nem nós, nem nada sobrará! É para aí que caminha a coisa! Nalguns livros com a suposta tua lei – tu predisseste isso. Armagedões e juízos finais! Para quê finais? Não nos podes julgar aos poucos? Receio-te e tenho temor, mas mesmo assim, sinto que deve perguntar-te estas coisas.

 

Entendo que dará trabalho controlar todos ao mesmo tempo. Deve ser difícil! Mas contrata ajudantes! Eu ofereço-me! Não precisas de me pagar. Dessa maneira, não só sei que estou a fazer o que devo, como estou a ajudar os outros a fazê-lo! Deve ser paga suficiente. Para mim, chega bem. Contrata-me, que eu aceito! Pode ser a tempo inteiro.

 

Aguardo a tua resposta. Que espero que não seja intempestiva. Não quero de forma alguma provocar a tua ira.

 

Com os melhores cumprimentos,

 

 

 

 

Mário L. Soares

 

publicado por Lagash às 00:51
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