Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Adiamento

 

 

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... 

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, 

E assim será possível; mas hoje não... 

Não, hoje nada; hoje não posso. 

A persistência confusa da minha subjectividade objectiva, 

O sono da minha vida real, intercalado, 

O cansaço antecipado e infinito, 

Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico... 

Esta espécie de alma... 

Só depois de amanhã... 

Hoje quero preparar-me, 

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... 

Ele é que é decisivo. 

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... 

Amanhã é o dia dos planos. 

Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... 

Tenho vontade de chorar, 

Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... 

 

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. 

Só depois de amanhã... 

Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. 

Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... 

Depois de amanhã serei outro, 

A minha vida triunfar-se-á, 

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático 

Serão convocadas por um edital... 

Mas por um edital de amanhã... 

Hoje quero dormir, redigirei amanhã... 

Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância? 

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 

Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo... 

Antes, não... 

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. 

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. 

Só depois de amanhã... 

Tenho sono como o frio de um cão vadio. 

Tenho muito sono. 

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 

Sim, talvez só depois de amanhã... 

 

O porvir... 

Sim, o porvir...

 

Álvaro de Campos (14/04/1928)

 

publicado por Lagash às 16:11
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