Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

De Verão

  

 

I

 

No campo; eu acho nele a musa que me anima:

A claridade, a robustez, a acção.

Esta manhã, saí com minha prima,

Em quem eu noto a mais sincera estima

E a mais completa e séria educação.

 

II

 

Criança encantadora! Eu mal esboço o quadro

Da lírica excursão, de intimidade.

Não pinto a velha ermida com seu adro;

Sei só desenho de compasso e esquadro,

Respiro indústria, paz, salubridade.

 

III

 

Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;

E tu dizias: "Fumas? E as fagulhas?

Apaga-o teu cachimbo junto às eiras;

Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!

Quanto me alegra a calma das debulhas!"

 

IV

 

E perguntavas sobre os últimos inventos

Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!

Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!

Olha: Os saloios vivos, corpulentos,

Como nos fazem grandes barretadas!

 

V

 

Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens

Dos olivais escuros. Onde irás?

Regressam os rebanhos das pastagens;

Ondeiam milhos, nuvens e miragens,

E, silencioso, eu fico para trás.

 

VI

 

Numa colina azul brilha um lugar caiado.

Belo! E arrimada ao cabo da sombrinha,

Como teu chapéu de palha, desabado,

Tu continuas na azinhaga; ao lado

Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

 

VII

 

Nisto, parando, como alguém que se analisa,

Sem desprender do chão teus olhos castos,

Tu começastes, harmónica, indecisa,

A arregaçar a chita, alegre e lisa

Da tua cauda um poucochinho a rastos.

 

VIII

 

Espreitam-te, por cima, as frestas dos celeiros;

O sol abrasa as terras já ceifadas,

E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,

Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,

As saias curtas, frescas, engomadas.

 

IX

 

E, como quem saltasse, extravagantemente,

Um rego de água sem se enxovalhar,

Tu, a austera, a gentil, a inteligente,

Depois de bem composta, deste à frente

Uma pernada cómica, vulgar!

 

X

 

Exótica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!

No atalho enxuto, e branco das espigas

Caídas das carradas no salmejo,

Esguio e a negrejar em um cortejo,

Destaca-se um carreiro de formigas.

 

XI

 

Elas, em sociedade, espertas, diligentes,

Na natureza trémula de sede,

Arrastam bichos, uvas e sementes;

E atulham, por instinto, previdentes,

Seus antros quase ocultos na parede.

 

XII

 

E eu desatei a rir como qualquer macaco!

"Tudo não as esmagares contra o solo!"

E ria-me, eu ocioso, inútil, fraco,

Eu de jasmim na casa do casaco

E de óculo deitado a tiracolo!

 

XIII

 

"As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora

Um sublimado corrosivo, uns pós

De solimão, eu, sem maior demora,

Envenená-las-ia! Tu, por ora,

Preferes o romântico ao feroz.

 

XIV

 

Que compaixão! Julgava até que matarias

Esses insectos importunos! Basta.

Merecem-te espantosas simpatias?

Eu felicito suas senhorias,

Que honraste com um pulo de ginasta!"

 

XV

 

E enfim calei-me. Os teus cabelos muito loiros

Luziam, com doçura, honestamente;

De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,

Lembravam-me fusões de imensos oiros,

E o mar um prado verde e florescente.

 

XVI

 

Vibravam, na campina, as chocas da manada;

Vinham uns carros e gemer no outeiro,

E finalmente, enérgica, zangada,

Tu inda assim bastante envergonhada,

Volveste-me, apontando o formigueiro:

 

XVII

 

"Não me incomode, não, com ditos detestáveis!

Não seja simplesmente um zombador!

Estas mineiras negras, incansáveis,

São mais economistas, mais notáveis,

E mais trabalhadoras que o senhor."

 

Cesário Verde

 

publicado por Lagash às 16:12
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